domingo, 2 de agosto de 2009

Esboço de personagem (arquitecto)

Luzinhas que se movimentam frenéticas, sons que se ouvem sufocados e que se amontoam do outro lado da janela e parecem querer quebrá-la e ensurdecer-me como se fossem uma sinfonia infernal. O meu olhar dispersa-se pelos infinitos pontos cirandantes que se vêem da janela do escritório. Esforço-me para fazer com que os meus sentidos divaguem por todos os campos sensoriais possíveis de maneira a que o meu pensamento se descentre da descrença, mas a ideia da existência mutilada é demasiado forte para se sublimar.

Telefono-te. As tuas palavras querem despreocupar-me, mas o tom da tua voz impõe-se. «Sim, hoje sinto-me melhor. Não te preocupes». A tua morte está perto e a tua voz sabe disso e manifesta-o - fraca e cansada - também ela mutilada. Desligo.

Pode ser que tudo não passe de um sonho, de um daqueles sonhos maus, de uma provação daquelas que vêm na Bíblia, que servem só para testar a fé, como aquela história do Abraão ter de matar o próprio filho ou as provações que Job teve de ultrapassar e, depois de passarmos o teste divino, Deus, ou seja lá o que for, aparece no último momento a remendar as coisas... Pode ser. Mas não sou um homem de fé, nem sequer crente, que se há-de fazer?

A tua voz doente e ciente do teu fim vai-se perdendo na minha memória. As recordações começam a ser abafadas por outros pensamentos: pelo que vejo da janela deste nono andar, pelas luzinhas que se movimentam, frenéticas, pelos sons que se ouvem sufocados e que se amontoam do outro lado da janela e parecem querer quebrá-la e ensurdecer-me como se fossem uma sinfonia infernal, da cidade que teima em não descansar e que nunca perde a sua dinâmica, nem quando todos os quase infinitos objectos que a compõem permanecem estáticos, sem espaço para fluir, como se fossem pensamentos que percorrem um cérebro desgastado pela erosão da vida e sem espaço para abarcar nada mais.

Hoje não te vou visitar... não me sinto com forças para enfrentar o teu ar doente e os teus olhos que a falta de cabelo fez com que parecessem ainda maiores, mas sem brilho e sem alegria. Fixam-se apenas no nada, olham o vazio, contemplam o passado e recusam-se a observar o futuro e, pior que isso, parecem querer fugir do presente. Está decidido, hoje não vou visitar-te...

Prefiro antes ficar a observar o caos lá fora, feito das rotinas de todos os que vagueiam pela cidade. Sossega-me e reconforta-me e quase já nem me lembro que estás confinada a um quarto de hospital, à espera do teu fim que não está muito distante. Sei que cada segundo teu parece uma eternidade, porque subexistir assim é insuportável. Vais-me morrendo aos poucos e eu aqui, encafuado neste atelier, a refugiar-me nas reuniões, a evadir-me no trabalho, a abafar o pensamento de ti, escapulindo-me da realidade... e tu...

«Senhor arquitecto, telefone para si... É o engenheiro Mattoso... Digo-lhe que está em reunião?»

«Não Lurdes, eu atendo... Sr. Engenheiro como está?... Não, ela não está muito bem e não há perspectivas de melhoras... Pode ser que sim... Obrigado pela preocupação... Mas falando de trabalho, já fez o projecto para a estrutura do prédio da Baixa?...»