terça-feira, 8 de setembro de 2009

Esboço de personagem (Gajo Picuinhas novamente)

O bom de estar desempregado é não me custar a levantar da cama. Porque o acto de levantar da cama é como o acto de ler um livro, por obrigação não tem piada nenhuma. Abro o estore. Mas devagar, que é para criar suspense. Nunca se sabe que surpresas o dia decidiu trazer-nos. Céu limpo e as folhas das árvores não se movem. Mau dia para sair de casa. O ar que não flui não dilui as bactérias. Não leva para longe o dióxido de carbono que as pessoas expelem dos pulmões. Já se imaginaram a abrir a caixa torácica de alguém e a meterem o nariz lá dentro? A ideia não é agradável.

Só me sinto à vontade na rua em dias de temporal. O vento centrifuga a porcaria que as pessoas deitam para fora do corpo e a água da chuva lava-a. E não falo apenas de porcaria física, mas também daquela que não se vê. Essa é a pior, porque está camuflada e ataca pela calada, sem ninguém dar conta. Mas eu sinto-a sempre, a mim não me apanha. Claro que se as sarjetas estiverem entupidas e a água se amontoar em poças a coisa ainda é pior do que em dias de céu limpo. Criam-se pântanos de merda física. Isso é de meter nojo a qualquer um. Mas o pior é a merda microscópica e a merda etérea que por lá abunda. Mas agora não quero pensar nisso.

Outra das vantagens de estar desempregado é não ter de pegar o dia pelos cornos se não tiver vontade. Sei que para o meu pai, tios e primos sou aquilo a que eles chamam um parasita. Que vive da Segurança Social. Todos os Natais é a mesma coisa "ah e tal, os descontos que eu faço é que te sustentam" (Como diria um amigo meu: "Era metê-los a todos num caixote e atirá-los ao mar"). Tenho de dizer que toda a minha família é bem sucedida. Trabalham todos por conta própria, a geração mais velha no ramo da construção e a mais nova em profissões liberais. Mas se há coisa em que têm talento comum é em ganhar quantidades razoáveis de dinheiro e ludibriarem as finanças declarando o salário mínimo. Portanto, sempre que estou com eles fico confuso sobre quem é que realmente me sustenta, já que todos são mestres em fugir ao fisco e à Segurança Social. É que não há director-geral dos impostos que lhes sobreviva.

O que vale é que só tenho de os aturar no Natal. O resto do ano posso prosseguir normalmente com a minha vida. Observar o meu quarteirão, como se fosse Deus a contemplar a sua criação, e pensar em nada para me inibir de agir. Às vezes até gostava de ter uma vida mais activa, de utilizar o meu aparelho fonador mais que três vezes ao dia, de tocar em alguém, até amar talvez. Mas é a porcaria... essa praga de micróbios físicos e metafísicos que se instalou na cidade que me impede de o fazer. Tenho-lhes pavor.