sábado, 9 de junho de 2007

Amor a recibos verdes

Numa altura em que toda a gente fala em flexigurança (ou será flexisegurança? Olhem, é o raio que o parta que um dinamarquês inventou porque no país dele não faz bom tempo para se poder ir para a praia), apetece-me falar em relações. Não laborais, é certo, mas amorosas. Parece que, para além da flexigurança/flexisegurança também estão a ganhar adesão as relações tipo prestação de serviços sem compromisso, em que os sujeitos são independentes e podem ser despedidos sem justa causa e sem direito a subsídio de doença ou de desemprego. No amor a recibos verdes já não existe cá aquela treta "na saúde e na doença, na tristeza e na alegria". É cada um por si e quando os serviços forem dispensados cada um se arranje. Nos dias que correm é muito difícil encontrar uma relação onde se consiga "entrar para os quadros".

Já viram como as tendências do mercado laboral se espalham para os comportamentos amorosos?

quinta-feira, 7 de junho de 2007

Excerto de uma reunião dos Alcoólicos Anónimos

"Não sei muito bem por onde começar, já nem sequer me lembro muito bem quando comecei a beber e porquê… bem, talvez me lembre, talvez tenha apenas receio de o dizer, de o recordar. É claro que durante a minha juventude tive aquelas bebedeiras com os meus amigos, mas essas não contam, não são essas que me estão a matar, que me estão a fazer desaparecer, não são essas que me afogam em mim, não são essas que me corroem como um cancro fulminante… não são essas, não são…

O problema é que comecei a beber como quem não quer a coisa, como quem se sente vazio e procura algo, o que quer que seja, para se sentir um bocado menos afastado do sentimento de pleno. Talvez me tenha tornado alcoólico porque todos os sentimentos que pensava existir não passavam de meros pensamentos, sem concretização na realidade. O amor, o que é essa merda? Um receptáculo colocado no meio das pernas abertas de uma mulher, de uma mulher que abre as pernas por rotina, frígida como uma falésia de mármore, que conta as moscas que estão no tecto, que se está a cagar para o que tu sentes ou deixas de sentir? O amor não existe… a amizade, treta, treta, treta, treta, treta…


Um gajo desilude-se com as merdas e entra numa espécie de vácuo niilista ou o raio que o parta e adere à primeira seita que nos bate à porta… neste caso a seita foi o álcool. Sinto-me bem quando bebo e quando acabo de beber, sinto-me péssimo antes de beber. Quando bebo sinto que estou a fazer algo que, de certa forma, acaba por me preencher, depois de beber sinto-me novamente uma criança que acredita em tudo o que lhe dizem, acredito novamente que as coisas podiam ser perfeitas, que a plenitude está perto, que o que não foi podia ter sido, que a felicidade existe e que estou a um pedaço de a conseguir… mas há sempre uma voz que te diz: “falta-te um bocadinho assim” e caio naquela espiral que nos faz vomitar, que faz o cérebro boiar no nosso crânio e por aí adiante…

Das poucas vezes que estou sóbrio sinto que o processo da alcoolização não passa de uma rotina tão estúpida e maquinal como um abrir de pernas robotizado…

Penso que é tudo…"

quarta-feira, 6 de junho de 2007

Versão infantil da Cimeira do G-8

Era uma vez um menino que se chamava Jorginho e outro que se chamava Vladimirzinho.

Os meninos gostavam muito de um brinquedo chamado Terra.

Ambos os meninos queriam o brinquedo só para si. Mas Vladimirzinho tinha medo de desafiar Jorginho, porque o Jorginho tem muitos amigos e o Vladimirzinho é mais solitário. Só que o Jorginho queria mesmo mesmo muito a Terra, mas tinha medo de afrontar directamente o Vladimirzinho. Então o que fez o Jorginho? Usou as histórias do bicho papão, que até usa turbante e tudo, para assustar os amiguinhos e pregar uma partida ao Vladimirzinho. Mas o Vladimirzinho, que quer ser taxista quando crescer, não é nada burro, e percebeu a jogada do Jorginho, que começou a puxar pelo brinquedo sem ninguém dar por isso. O Vladimirzinho ameaçou então o Jorginho: "Se tu puxas pelo brinquedo eu também puxo". Mas há um pequeno problemazinho. O tal brinquedo, a Terra, é frágil, e a qualquer momento pode partir-se.

terça-feira, 5 de junho de 2007

Os fazedores de opinião

Há muitas coisas que me fazem confusão. Uma delas é a expressão "fazedores de opinião". Isto porquê? Porque os ditos "fazedores de opinião" proliferam nas ditas democracias, onde é suposto os cidadãos pensarem pelas suas cabecinhas e construírem a sua própria opinião. Assim sendo, é paradoxal que em sociedades denominadas democráticas exista essa figura do "fazedor de opinião", como se as opiniões fossem construídas, pré-fabricadas, como se se tratasse de uma linha de montagem de opiniões. Mais irónico é o suporte utilizado pelos "fazedores de opinião" (imprensa, televisão, internet) que são, como os responsáveis pelos meios de comunicação gostam de os descrever, o baluarte da liberdade e um dos garantes dos sistemas democráticos.

Assim, das duas três: ou os fazedores de opinião assumem que todo o seu auditório é acéfalo e que pretendem influenciar a sua decisão; ou então têm de iniciar uma campanha recusando o seu estatuto de "fazedores de opinião", assumindo-se apenas como mais uma pessoa normal que quer partilhar a sua opinião.

Mas pior que os "fazedores de opinião" são os "líderes de opinião". O que é ser um líder de opinião? A opinião é uma competição, onde uns se destacam mais que outros, e ganham a "camisola do rei da opinião"? Mais ainda que os "fazedores", os "líderes de opinião" são um areal na engrenagem dos sistemas que se querem democráticos, ao jeito de um Novo Testamento pós-modernista em que os apóstolos seguem não o Messias, mas o "líder de opinião".

Outra coisa que me irrita nos "mestres da opinião" é serem especialistas em tudo e mais um par de botas e/ou depois virem com falsas modéstias, do género, "eu não sou técnico em engenharia, mas o novo aeroporto devia ser localizado em determinado lugar". Parecidos com aqueles a quem lhes perguntam: "Onde fica a Rua da Betesga?" e respondem: "Não sei, mas o Rossio é já ali...".

Como diria o outro: "As opiniões são como as vaginas, cada um tem a sua e dá-a quando quiser". Opiniões precisam-se. Dispensa-se é quem queira fazer da sua opinião um veredicto, um dogma, um postulado e que se veja a si próprio como um "fazedor" ou, pior que isso, um "líder" de opinião.

Mas depois há um problema: para quê emitir uma opinião, se realmente não queremos persuadir ninguém? Por exemplo, se alguém lesse este texto e pensasse "eh pá... olha que as coisas até são assim" confesso que ficaria satisfeito, enquanto se alguém respondesse "este fala dos que fazem opinião, mas está a tentar imitá-los e sem jeito nenhum para a coisa", aí a modo que me sentiria assim com a auto-estima um bocado ferida.

Que se há-de fazer? No início do texto referi que "há muitas coisas que me fazem confusão" e parece que a democracia e a opinião integram esse lote de "muitas coisas".

segunda-feira, 4 de junho de 2007

Pontes e suicídio

"The Bridge" é um documentário sobre a Ponte Golden Gate em São Francisco. O que à partida parece ser apenas mais uma película, foi e é um dos grandes focos de controvérsia nos Estados Unidos. O motivo: o realizador Eric Steel argumentou junto das autoridades que precisava de filmar a ponte durante um ano para fazer um documentário sobre monumentos nacionais e sobre a interacção da infra-estrutra com o meio envolvente. Mas, na verdade, o argumento era falso, já que durante esse ano Steel aproveitou para filmar os suicídios cometidos na ponte (26), que serviram de matéria-prima para a elaboração de "The Bridge".

O realizador argumenta que quis alertar a sociedade para o problema do suicídio, afirmando que a ponte de São Francisco é o local onde mais pessoas põem termo à própria vida. A verdade é que a administração da Golden Gate, após a estreia do filme, encomendou estudos com o objectivo de colocar barreiras arquitectónicas que dissuadam os suicidas. Para além das filmagens, Steel entrevistou pessoas próximas das vítimas da Golden Gate, ocultando-lhes, no entanto, que tinha filmado o salto fatal.

A equipa de Steel conseguiu captar as imagens de um suicida que resistiu à queda. O sobrevivente afirmou depois que se arrependeu do seu acto assim que saltou, o que o levou a procurar uma posição de mergulho que atenuasse o impacto.

A questão que fica é: "The Bridge", que estreia nas salas portuguesas a 14 de Junho, é oportunismo ou uma tentativa de sensibilização?