sexta-feira, 13 de julho de 2007

Paixões instantâneas

Andar de metro tem poucas coisas positivas. Tem a vantagem de nos colocar mais rápido num determinado ponto da cidade, mas, como nem tudo é perfeito, obriga-nos a subir e a descer escadas e mais escadas e a termos de passar por portas estreitas que parecem saídas da terreola do Frodo Baggins, em tamanho, não em estética, diga-se.

Outra das vantagens é a viagem de metro não ter pontos para distrair a nossa atenção. Não há paisagem para ver e, na ânsia de não se entrar no desespero de nos sentirmos vazios e autómatos, tentamos a todo o custo focar a nossa atenção ou em algum pensamento, ou em algum passageiro desconhecido e que tenha características peculiares. Tentamos radiografá-lo e imaginar-lhe uma vida, tornando-o assim um passageiro do nosso pensamento. A partir dessa altura já não se encara o outro como um outro, mas sim como uma personagem criada por nós num romance imaginário. É um exercício estimulante.

Mas mais estimulante ainda são as paixões metropolitanas, aquelas que duram os dez minutos que o metro demora a chegar da Baixa-Chiado a Sete Rios. Por vezes, deparamo-nos com mulheres que através de um gesto, de um trejeito ou de um olhar materializam aquele je ne sais quoi que não sabemos o que é, mas que nos agrada. E aí, começamos a imaginar tudo o que poderia ser mas nunca será, a cruzar e a desviar olhares. É como se contemplássemos uma obra prima que nunca será nossa, porque nunca sairá do museu. Esses instantes fazem-nos sonhar... e há quem diga que é bom sonhar e eu acredito.

Saídos do metro, a imagem desvanece-se e a paixão instantânea dissolve-se. Nunca mais nos lembramos dela, a não ser que tenha havido um olhar sorridente cravado na memória até sairmos da estação. Paixões subterrâneas que se apagam quando chegamos à superfície.

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Diz que este blog já proporcionou momentos de excelência

A gasolina, do Flor da Palavra, parece que teve um daqueles momentos de insanidade temporária e resolveu galardoar aqui o Pensamentos SGPS como "um blog de excelência", que se destaca - e cito - "pelas palavras, pela música, pelas reflexões, pelas imagens, pelos desafios, pela solidariedade, pela vida partilhada". Parece que a iniciativa partiu do http://momentusmomentus.blogspot.com/. Eu por cá, apesar de continuar a achar que no futuro ela poderá alegar insanidade por esta decisão, agradeço a generosidade da Gasolina.

E parece que eu também conheço alguns blogs que se enquandram naqueles requisitos. Basta consultar a lista de links. Todos os que lá estão merecem esse reconhecimento (não sei se os posso nomear todos, porque não sei muito bem como funcionam estas coisas, mas é essa a minha vontade e dizem que a vontade pode muito e eu acredito).

terça-feira, 10 de julho de 2007

Inédito: o autor deste blog perde a cabeça e tenta fazer um sucedâneo de poesia

Eu quero que saibas que sem ti
Não existe céu nem terra,
Não existem estrelas nem mares,
Não existe fogo nem água.

Quero que saibas que sem ti
Não existe beleza nem afectos
Não existem lágrimas nem sorrisos
Não existe felicidade nem saudade.

Quero que saibas que sem ti
Não existe vida nem morte,
Não existe crime e castigo.
Não existe amor. Não existe ódio.

Quero que saibas que sem ti
Nada existe

Mas falemos de nós,
De nós em tempos onde não existem plurais.
Falemos de olhos,
Mas estamos em tempos onde não existem olhares.

Falemos de amor,
onde o chão não se pisa
o céu não se vê
as folhas não caem
o mundo não é
o som não se ouve
o mar não se cheira

Falemos de amor
Façamos amor
Na busca de nós
Querendo sentir
O que não se sente

Sentir o vazio do que será
Esperar por um amanhã que não chegará
Para quê sentir o que nunca se irá sentir
O que nunca se irá viver
Preso ao erro
Preso ao que não existe
Preso a um absurdo…

Quero que saibas que sem ti
Não existe vida nem morte,
Não existem a saudade e o carinho.
Não existe amor. Não existe ódio.

Quero que saibas que sem ti
Nada existe.

domingo, 8 de julho de 2007

Retratos de uma cidade impossível de retratar

- E é nessas alturas que é necessário acontecer o insólito para descentrarmos a nossa atenção de nós próprios e interagirmos com o mundo…

- Concordo perfeitamente… Ainda ontem assisti a um episódio insólito que teve o efeito que descreveste há pouco. Queres que te conte? Então foi assim… Ia pela rua quando me deparei com um músico… Só que o músico não tocava e cantava horrivelmente mas era, sem dúvida nenhuma, um músico. Tinha um microfone de madeira e, em vez de guitarra, usava uma simples tábua minimalista e, apesar de não haver cordas para fazer acordes, o músico parecia estar mesmo a fazer uma qualquer espécie de alquimia. Cantava com a voz esfarrapada, exprimindo o corpo como se fosse uma pop star. Não tem piada? Não era a isto que te referias?

in Café por Acaso

terça-feira, 3 de julho de 2007

O texto medieval da semana (tentativa de criar um diálogo de despedida entre mestre e discípulo)

Recebi a minha educação de um sábio irmão de minha mãe. Godofredo era um monge que me recebia num mosteiro nas cercanias de Clermont. O preceptorado de meu tio iniciara-se tinha eu cinco anos, findando-se quando atingira o meu décimo terceiro aniversário. Recordo-me do nosso último encontro enquanto mestre e discípulo. “Raimundo, temo que os meus humildes ensinamentos cessem brevemente…”. Lembro-me de ter colocado em Godofredo um olhar inquisitivo, raramente dialogava com ele através de palavras; a palavra era algo que exigia demasiada sabedoria para poder manuseá-la com meu tio. “Os teus olhos interrogam-me… sempre me interrogaram desde que te comecei a falar do latim, da sagrada doutrina de Deus, das leis que sustentam o mundo… és muito curioso rapaz, muito curioso…”. Sempre que meu tio-monge se esquivava dos meus silêncios inquisitivos o meu olhar adquiria uma tonalidade que enfatizava a curiosidade. “Pois… sabes meu rapaz, recordas-te de te ter falado de um grande homem? Recordas-te de te ter falado de Bernardo? Claro que te recordas… Pois bem, juntar-me-ei a ele no Mosteiro de Clairvaux.”

À revelação seguiu-se um largo silêncio… Meu tio-monge cogitava a melhor maneira de estruturar os seus pensamentos de forma a poder partilhá-los. “Sabes Raimundo?”. Encolhi os ombros como que suplicando para que ele respondesse à sua própria questão. “O homem caminha sempre para a sua perdição e sabes porquê? Porque não se limita a possuir e a querer possuir o entendimento das coisas. Se bem que o valor moral do desejo de se adquirir o entendimento de algo seja discutível, não é esse desejo que impele o homem para um fim moralmente reprovável. Repara nos animais; são livres de pecado porque se limitam a contemplar e a viver a vida que Deus lhes deu. O homem busca o entendimento das coisas e, pior que isso, o desejo de possuir essas mesmas coisas. Ao homem não lhe basta perceber o que o rodeia, necessita de dominar o que o envolve, reclamando o que pensou entender como seu. Mas o que é não pertence ao homem, pertence a Deus, e o desejo de se assenhorear do que nunca poderá ser seu é um sacrilégio. Além disso, o homem, mesmo quando pensa que possuiu qualquer objecto ou qualquer pensamento, nunca chegou a possuir coisa alguma. Ao homem não lhe basta conhecer, tem de se apropriar do que conhece e subvertê-lo para poder reclamá-lo orgulhosa e soberbamente como seu. Mas engana-se, pois a posse é ilusória e pecaminosa”.

Ambos reflectimos sobre as palavras e os seus sentidos. Germinava uma pergunta em mim que o silêncio não podia comunicar. “Mas há sábios que transformam pedra em ouro, subvertendo dessa forma as características e as qualidades que Deus deu às coisas”. Godofredo coçou o queixo.

“Não Raimundo, não há homens que consigam transformar pedra em ouro e, mesmo que o conseguissem, o ouro continuaria a ser simplesmente uma pedra, sendo que a mutação da natureza das coisas seria apenas ilusória. Os únicos homens que têm poder para dominar o que entendem não se atrevem a fazê-lo, porque são verdadeiramente sábios; a sua sabedoria ensina-os a contemplarem apenas as coisas e a testemunharem as manifestações divinas, evitando a tentação de se proclamarem senhores de determinada verdade… Estes salvam-se.”

segunda-feira, 2 de julho de 2007

Ab urbe condita


Afinal a "loba do Capitólio" é alemã e o Rómulo e o Remo são polacos.

domingo, 1 de julho de 2007

Memórias de um velho sobre a sua juventude

Naquele tempo desejava descobrir-me… para o fazer teria de aparecer uma outra existência que afirmasse a necessidade do ser de um eu, visto que este não se consciencializa de si sem se confrontar com um outro. Por vezes, desta necessidade brotam situações complexas, nascem vivências e sensações que não cabem nas palavras nem na faculdade que nos foi concedida (ou que conquistámos) de expressar e comunicar objectos concretos e abstractos. Quando se é jovem deseja-se algo indefinido, etéreo e o desnorte aparece fruto da não visibilidade do que se deseja. Constrói-se um universo eidético que não possui ordem porque não se consegue objectivá-lo devido a uma ténue mundivivência… deste problema surge a necessidade de encontrar um outro, para o qual se transmuta o que se deseja idealmente. Encarnamos os nossos desejos na figura de um outro permitindo que o amor, ou algo que se lhe assemelhe, floresça.

Nesse Outono eu atravessava esse processo, podendo dizer-se que me apaixonara. Não… reflectindo bem, constato que não se tratava de amor nem de paixão, era, isso sim, um exercício mental que concentrava os meus desejos no corpo de uma mulher. Dulce… a expressão que mais se te adequa é aquela que foi amada sem o ser realmente… Não importa, o que interessa é que naquela altura eu acreditava mesmo amar-te… contemplava-te… procurava os locais onde a tua presença enchesse o espaço… observava-te numa doce sucessão de momentos. Fui feliz assim, amando-te sem tu o saberes.

sexta-feira, 29 de junho de 2007

Nova "lei do tabaco"

Antes desta lei quando alguém estava a fumar um charro num local público dizia que estava a fumar um cigarro de enrolar. Depois desta lei, quando alguém estiver a fumar um cigarro num local público dirá que está a fumar um charro.

quinta-feira, 28 de junho de 2007

Outro excerto de uma reunião dos Alcoólicos Anónimos. É que hoje é quinta-feira.

"Eu bebo porque sinto a alegria quando me embebedo. O problema é que já não sei se quando fico com os copos a alegria que sinto é genuína, ou se é apenas uma aparência. É tudo muito confuso… quando não estou bêbeda tenho uma personalidade taciturna, não consigo ter capacidade criativa, pareço uma sombra; mas quando me alcoolizo sinto-me plena de alegria, com uma vontade enorme de me divertir e de criar coisas novas, de criar objectos novos e nunca antes vistos.

Por isso é que não sei se deva ou não deixar de beber… se por um lado serei mais saudável, por outro sinto que nunca mais conseguirei esculpir a pedra… sem o álcool não irei conseguir talhar na rocha os sentimentos imateriais que ninguém consegue tocar… as minhas esculturas dão-me essa possibilidade.

Sem o sentimento etílico tudo se irá desvanecer, tudo desaparecerá. O álcool é o elemento que me possibilita fazer a alquimia dos sentires em sentidos… Acho que não estou aqui a fazer nada... … Vou-me embora, foi um erro tremendo vir até aqui…"

quarta-feira, 27 de junho de 2007

O problema da perfeição

Nunca ninguém a conseguiu exprimir.

segunda-feira, 25 de junho de 2007

D. Sebastião e o V Império

Eu juro que não faço estas coisas de propósito, mas a poesia parece perseguir-me. Depois da mulher que vendia poemas , que por acaso voltei a encontrar novamente, foi a vez de um senhor na praia, com a pele batida pelo sol e áspera do tabaco, me perguntar se gostava de poesia. Não foi bem se gostava de poesia, foi mais: "Gosta de Fernando Pessoa?". Ao que eu respondi que sim, porque por acaso até gosto de Pessoa, dos heterónimos e do semi-heterónimo (um dia ainda conversaremos sobre os semi-heterónimos). E pensei, se me vai vender um poema, ao menos que seja um poema de Pessoa. Mas não, o senhor não me queria vender nenhum poema, queria era oferecer-me um livro de poemas de Fernado Pessoa.

Poucos minutos depois, sentei-me e abri o livro ao acaso. Deparei-me com o "D. Sebastião" e o "Quinto Império" e pensei que afinal o sebastianismo ainda está vivo, já que todos os líderes de Portugal, por mais promissores que pareçam, acabam perdidos nas areias de um qualquer Alcácer Quibir. O que querem? "Ser descontente é ser homem".

domingo, 24 de junho de 2007

Dúvidas de um escritor ao começar uma narrativa

No princípio Deus criou o céu e a terra… É muito fácil dizer que no princípio isto, no princípio aquilo… O problema é que no princípio nada existe e temos de transformar a coisa nenhuma num céu e numa terra. É por isso que nos é sempre difícil criar um princípio para o que quer que seja. Para construir uma narrativa temos de criar um céu e uma terra e tudo o resto até que o Verbo seja carne. O que custa é iniciar… Vamos acumulando sonhos na nossa memória, pensamentos que nos assaltaram nas nossas vigílias, sensações que experimentámos e experiências que sentimos. Podia começar com o célebre «No princípio Deus criou o céu e a terra».

Não!!! Nada disto!!! É preciso estar muito desesperado para começar com o princípio da Bíblia. E se começasse com um gajo a assobiar uma melodia de uma sinfonia qualquer?

Não serve!!! E se… e se… mal de nós quando tudo principia por um mísero e se… Imaginem Deus a criar o mundo, o universo ou o que quer seja… Imaginem Deus a pensar: e se criasse primeiro uma mulher e depois um homem? … E se pusesse seios ao homem e barba à mulher?... E se em vez de maçãs o fruto proibido fosse um morango? … Assim sempre era mais afrodisíaco, e com um bocadinho de chantilly o Paraíso seria tema recorrente em filmes pornográficos... E se… e se… Tudo o que principia por um reles e se nunca passará de uma reles experiência do que quer que seja. É como construir uma casa sem alicerces, é como parir sem gravidez... E se a minha personagem fosse um mísero e reles vagabundo sem consciência de si?....

quinta-feira, 21 de junho de 2007

Mais um excerto de uma reunião dos Alcoólicos Anónimos, porque hoje é quinta-feira

"Não sou só eu que sou uma merda, todos nós somos merda, os que aqui estamos e os que não estão aqui. Os que são e os que se foram, tudo merda. Nunca se sentiram absorvidos por algo que não vos leva a lado nenhum? É assim que a puta da bebida me faz sentir… caminhar para um vazio, para um buraco negro. O álcool alimenta-me de nada e não consigo deixar-me de alimentar de um éter vazio e inexistente, que conduz a uma não acção permanente e me enovela num tédio contínuo, criado à parte da realidade e do que existe, retirando-me todas as possibilidades de contacto com outra coisa que não seja esse mesmo tédio. Não percebem pois não? Já calculava, mas também não quero saber…

De certeza que não sabem o que é perder tudo por causa desta merda… De certeza que não sabem o que é ficar sem emprego, sem família e sem existência… De certeza que não sabem o que é ser o exemplo do paradoxo de perder tudo por algo que nos fez perder tudo e continuar a perder tudo depois de ter perdido tudo…

Que discurso de merda… fiquei sem nada do que me foi, incluindo o dom da comunicação… nem eu próprio percebo o que digo… Nem sei o que vim aqui fazer…

Só sei é que me apetece pontapear o tédio vazio que me aparece… mas como é que consigo pontapear o vazio? Impossível… impossível vencer algo que já não me é exterior mas que já faz parte de mim próprio, que já me sugou toda a capacidade de ser eu próprio ou o raio que me parta… (começa aos pontapés à cadeira) Desculpem lá seus bêbedos da merda… mas eu não estou aqui a fazer nada… boa sorte para vocês…"

terça-feira, 19 de junho de 2007

O texto chato da semana (exemplo de texto cheio de lugares comuns)

A rua estava inundada, enlameada, perdida no esquecimento de todos os que por lá não passavam. Umas dezenas de miúdos dirigiam-se para a escola… era mais um dia invernoso em que a imposição de aprender os obrigava a levantar da cama de manhãzinha, bem cedinho, ainda o dia não irrompera pelas trevas nocturnas. Agasalhados e munidos de guarda-chuvas atreviam-se a romper o frio à procura do saber. Uns faziam-no de livre vontade, mas a maior parte nem por isso. As botas escuras acastanhavam-se com a lama… a autarquia ainda não se lembrara da necessidade de pavimentar a rua.

Das dezenas de miúdos que se dirigiam para os edifícios da sapiência, um deles revolvia-se pela lama como um porco numa furda. Esquecido por todos os outros fora atirado ao chão por alguns deles. A roupa que a mãe lhe preparara com diligência conspurcava-se na terra barrenta. A face salpicada de sujidade parecia permanecer impassível, séria e fria, num sentimento de quem nada podia fazer para mudar o estado das coisas. No entanto, não era bem o sentimento de impotência que o absorvia, mas sim a consciência de que as coisas eram assim e não valia a pena o trabalho de as tentar mudar. Ergueu-se como se nada se tivesse passado… a melhor forma de nos alhearmos do que nos humilha é fingir que essas coisas são nada. Verificou o estado da mochila… a sua preocupação centrava-se apenas na possibilidade da lama ter penetrado nos livros e nos seus cadernos de poesia… sim, porque para ele não valia a pena ter cadernos todos abonecados para as disciplinas. Talvez pouca coisa valha mesmo a pena… mas não querendo contrariar o adágio de um poeta coloco já aqui um ponto final neste assunto. Isto no fundo é preguiça, mas decerto que todos compreendem os preguiçosos… se nada fazem, a possibilidade de fazerem coisas desagradáveis é bem menor. Mais valia que estivéssemos todos quietos… mas toda a gente pensa que a vida se manifesta pelo movimento… enfim, andamos todos enganados e somos felizes com isso. Esquecia-me de referir que a possibilidade que causava a preocupação do miúdo não se realizou…

Timidamente, o miúdo enlameado retomou a sua caminhada para a escola. Estava atrasado… os relógios são implacáveis, nunca querem parar; e mesmo quando algum se lembra de ficar quieto (ou se esquece de continuar a sua marcha inexorável [escolham a melhor opção porque isso tanto se me dá como se deu]) os outros nunca lhe seguem o exemplo. Atalhando conversa, que isto já se está a tornar chato, o miúdo chegou atrasado à aula e ouviu uma descompostura da professora de História.

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Eu sou leitor ocasional "Do Portugal Profundo"

Hoje apetecia-me escrever sobre dança. Mas a minha mãe costuma-me dizer: "Na vida não se pode fazer só o que nos apetece" e penso que há um assunto que vale mais a minha reflexão do que o tema da dança. Trata-se do facto de António Balbino Caldeira ter sido convocado para ser ouvido como arguido no Departamento de Acção e Investigação Penal (DCIAP) (isto quando se escreve sobre coisas judiciais parece que as palavras nunca mais acabam e insistem todas em rimar), segundo informação veiculada pelo próprio, no âmbito do chamado "dossier Sócrates" (eu sei que há muita gente que escreve dossiê e talvez essa seja a forma mais correcta, mas eu sou teimoso e escrevo dossier). Ora bem, o autor do blogue "Do Portugal Profundo" foi o primeiro a publicar informações relacionadas com o percurso académico do primeiro-ministro português, o que serviu de fio de Ariadne para a catadupa informativa que depois se seguiu. Para além disto, e segundo a mesma fonte, o autor do blogue foi também notificado para prestar depoimentos enquanto testemunha num outro processo ligado ao mesmo assunto.

Desconheço qual o motivo concreto que levou o cidadão Balbino Caldeira a ser constituído arguido. Mas depois do caso da DREN, das declarações de directores de jornais sobre alegadas (bela palavra para livrar os tomates do cepo) pressões por parte do Governo em notícias relacionadas com a licenciatura de Sócrates e de outros incidentes, é caso para desconfiar se não nos andam a amordaçar e se já nos vendaram os olhos sem nos apercebermos.

E depois há a questão do ser-se arguido. Acho que só quem for ou já tiver sido arguido é que pode ser português. Penso até que só se pode conceder a nacionalidade portuguesa a quem já tenha padecido dessa situação. Estamos no país em que até ter um estendal numa parede é caso para se ser arguido (oooops, acho que isto está em segredo de justiça, amanhã é certo que nem ginjas que vou receber uma notificação da PGR a dizer que sou arguido no processo "estendais & roupa suja". Vou emoldurá-la e tudo).

Tudo isto para dizer que limitar a liberdade de expressão é feio e que, a confirmar-se que Balbino Caldeira não cometeu nenhuma acção que justifique ter sido constituído arguido, andam a brincar com o fogo. É que podem tirar-nos salários, emprego, benefícios sociais, qualidade de vida, mas quando se trata da liberdade de expressão, aí as coisas podem dar para o torto. Mas tem de se aguardar para ver que rumo esta história irá tomar. Se Balbino Caldeira foi constituído arguido apenas por ter publicado informação relevante, e obtida de forma legal, sobre a licenciatura do primeiro-ministro aplaudo a sua coragem. Parecendo que não, é mais fácil escrever textos sobre dança do que sobre assuntos incómodos (mas, que diabo, também deve ter muito mais piada).

Pois bem, a dança fica para amanhã.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Receita para se fazer um Berardo

Primeiro preparam-se os ingredientes para se fazer o Berardo. E é fácil encontrá-los, aos igredientes claro, numa ilha chamada Madeira e que mais parece uma República das Bananas. Depois, deixam-se os ingredientes a temperar na África do Sul, de preferência numa mina de ouro que se pode comprar ao preço da chuva. Temperados os alimentos, introduzem-se na panela de pressão, que é como quem diz, em Portugal. É verdade, já me esquecia, falta temperar. Introduzem-se umas pitadas de arte contemporânea para comporem um dos maiores centros culturais do país, uma aparição num anúncio do BCP e deixa-se tudo ao lume durante uns meses.

Para os principiantes, bastam estas indicações. Já serve para preparar um prato de um homem de negócios bem sucedido, que nem sabe exactamente onde fez fortuna. Mas ainda não se trata de um Berardo de haute cuisine, de um Berardo com pedigree. Para se conseguir confeccionar um destes, é preciso juntar uma participação financeira de relevo nas maiores empresas portuguesas e levar o povo a dar-lhe palmadinhas nas costas, por exemplo, numa Assembleia Geral da Portugal Telecom. Para o prato ser mesmo digno de um grand chef, tem de se lhe juntar protagonismo no debate sobre o maior banco privado português, tipo o BCP, e o título de comendador. A refeição parece estar pronta.

Falta só uma coisa. Não esquecer decorar o prato com uma posição dominante no maior clube de futebol do país e de servi-lo vestido de preto. E para beber, um financiamentozinho para o estudo sobre a localização de um aeroporto qualquer.

Imagem ofurtada de http://oam.risco.pt

quinta-feira, 14 de junho de 2007

Hoje é quinta-feira, mais um dia de excertos da reunião dos Alcoólicos Anónimos

"Olá, eu chamo-me… ah… chamo-me… esqueci-me do meu nome… como é possível? É a terceira vez que esta merda me acontece esta semana… Só um momento, vou ver se encontro o meu bilhete de identidade para me lembrar do meu nome… não encontro… olha que esta… onde é que já se viu… uma pessoa esquecer-se do próprio nome?

Mas se o meu nome tivesse importância com toda a certeza eu não me teria esquecido… já repararam? Esqueço-me do meu nome mas continuo a saber conjugar os verbos… estão a ver? A linguagem sim é importante, é por isso que eu não me esqueço dela… agora o nome, o nome não tem importância nenhuma… recordo-me agora que havia gente que me costumava tratar por vulva 24 horas…

Sabem que antes de ser bêbeda eu era agarrada… é verdade… acho que me chamavam vulva 24 horas pelos favores que eu fazia para me arranjarem uma dose… mas isso não importa… isso são outros tempos… são os tempos que fizeram com que o meu nome se apagasse da memória… e se reduzisse a uma simples alcunha… foram outros tempos…

Comecei a habituar-me ao álcool quando estava a fazer uma desintoxicação numa quinta perdida entre pinhais… acho que aquilo ficava mesmo no cu de Judas, se não era no cu de Judas era lá perto, p’raí na virilha ou assim… Aquilo tinha uma disciplina muito rigorosa, mas havia um gajo que levava vodka e gin lá para dentro… assim à socapa, estão a ver?... consegui deixar a heroína… mas abracei-me primeiro suavemente e depois violentamente à bebida…

Nem sei porque vim até aqui… estou aqui a falar da minha alcoolemia, mas só penso que quando sair daqui posso etilizar-me, destilar-me a noite toda, quando acordar, antes de adormecer, quando acordar outra vez… Eu sei que estou doente, sei que o álcool em mim funciona como uma patologia, é o meu pathos, estão a ver, uma puta bêbeda também sabe palavras em grego, não tem piada?

O que é que eu estava a dizer? Ah, que sabia que estava doente… mas não tenho a certeza se quero recuperar-me… é que eu acho que já não me lembro de mim antes de estar viciada em alguma coisa… tenho medo de voltar a recordar o meu nome se me recuperar… aliás, se eu me recuperar de certeza que tenho de arranjar outra coisa qualquer para me desrecuperar… a ideia de me reencontrar comigo é demasiado evangélica para eu a conceber… Que se lixe… ao menos venho até aqui e falo, falo, falo… sabe bem… um bocado de falo sabe bem… não… falo não… álcool… é por isso que aqui estou… pois… álcool…"

quarta-feira, 13 de junho de 2007

A confusão dos códigos sociais

Nunca me adaptei muito bem a códigos. Nem sequer tiro a carta de condução, tudo por causa do código da estrada. Também não sei combinar a minha roupa, o que denota um grande desconhecimento do código do vestuário, e não sou grande fã do código do trabalho. As disciplinas de Ciências Sociais que menos aprecio são aquelas que têm como base de estudo os códigos, tipo Semiologia e Semiótica.

Mas os que não se conseguem adaptar a códigos, nunca terão muita sorte na vida, porque, queiramos ou não, todas as relações sociais são regidas por códigos. E o facto de não os respeitar leva-nos a pensar: "Mas o que estou aqui a fazer?". E se os códigos sociais fossem fáceis de compreender, vá, a coisa ainda que se compunha. Mas não são.

Exemplos:

Uma senhora idosa aproxima-se do lugar onde estamos sentados no metropolitano. Lenvantamo-nos para lhe dar o lugar e ela não se senta. Toda a gente olha para nós com aquele ar: "Que ganda otário". Mas se uma senhora idosa se aproximar do nosso lugar e não nos levantarmos , toda a gente olha para nós com aquele ar: "Já não há respeito".

Vamos a uma conferência sobre um assunto qualquer e o orador, que sabe muito mais daquele assunto que nós, pergunta: "Sabem porque se chama bull market quando as bolsas sobem e bear market quando as bolsas descem?". Se respondermos: "Por causa da direcção do movimento de ataque do touro e do urso", fica toda a gente a olhar para nós de esguelha, como que a dizer: "Lá está ele outra vez a armar-se em espertinho". Por outro lado, se dissermos: "Não, não sei", lá fazem aquele sorriso condescendente como que a perguntar: "Como é possível tanta falta de cultura financeira?".

Encontramo-nos com uma pessoa do outro sexo e ela estende a mão para nos cumprimentar, quando nós já vamos com a cara disparada para dar dois beijinhos, e a outra pessoa pergunta: "Mas já andei a guardar ovelhas consigo?". Se, por outro lado, escaldados que estamos de nos chamarem pastores, estendemos a mão porque os dois beijinhos já não se usam, a outra pessoa olha para nós com aquele ar de que temos mesmo "ar de não me toques".

E quase que podia preencher o ciber-espaço com exemplos de pequenas entropias sociais que provam a dificuldade de entender e interpretar o código social, mas textos muito longos também quebram o código da blogosfera, não é?

terça-feira, 12 de junho de 2007

Crónica de uma noite de Santo António

Começa tudo no Marquês de Pombal. Desce-se a Avenida a acompanhar os que marcham asfalto abaixo, elas com manjericos na cabeça, eles agarrados a um ferro enfeitado que não sei como se chama na gíria das marchas, cantando versos numa melodia sempre igual acompanhada por batuques também eles sempre iguais. Eu, mochila carregada de cerveja e espírito sedento de bebida. A caminhada avança e o relógio também. No Rossio as mulheres com manjericos na cabeça e os homens que estiveram agarrados a um ferro enfeitado estão descalços, com dores nos pés, de tanto martelarem no asfalto da Avenida. Eu, mochila menos carregada e espírito mais reconfortado.

Contorna-se a colina coroada por um castelo. Caminha-se perto do rio. Aparecem pessoas saídas sei lá de onde (terá sido do Tejo?) que congestionam as ruas. O cheiro da sardinha assada, a raínha da época, é rei e possui os magotes de gente penetrando-lhes nos poros da roupa e da pele. Eu, mochila quase vazia e espírito quase cheio.

Sobe-se a custo a colina do castelo, esbarrando nuns, noutros e em mais outros. A mochila vazia, o espírito pleno e os olhos a sofrerem de uma miopia alcoólica que desfoca os rostos das pessoas que vêm e vão, como as ondas eternamente a rebentar contra a areia e contra as pedras, e isto não é em sentido figurado porque já há muita gente a esbarrar nas paredes. As ruas estreitam-se e o congestionamento torna-se mais evidente. Se houvesse agora um terramoto que deitasse as casas da colina abaixo seria como se rebentasse um dique que controla uma infinidade de gentes. Eu, já sem mochila e com o espírito a teimar na sede apesar de já estar com o depósito cheio.

Galgada a colina, ultrapassada Alfama, paro na entrada do castelo. Os sons agora já me aparecem abafados, longíquos até, e o cheiro a sardinha já se tornou imperceptível de tão evidente que é. A miopia agrava-se e tento adivinhar os contornos dos rostos das gentes e gentes que vêm e vão.

Chego a casa sem nenhuma memória do tempo e do espaço percorrido na chegada a casa. Acordo de manhã, com dor de cabeça, obviamente. A roupa a tresandar a sardinha. Procuro os óculos, coloco-os e a miopia grave regressa. Retiro os óculos, aponto-os contra a luz. Estão cheios de gordura de sardinha. Vou buscar o detergente para o fogão e limpo os óculos. Finda a delicada operação de limpeza, o mundo já se me mostra outra vez nos seus contornos normais, mas a dor de cabeça não passa. Este ano fiquei em casa... é que já não tenho detergente para o fogão e não consigo passar um dia sem ver o mundo.

segunda-feira, 11 de junho de 2007

Quanto vale um poema?

Cinco euros.

Passo a explicar: hoje, quando ia para o trabalho, fui interpelado por uma senhora. Não é que não esteja acostumado a ser interpelado por senhoras. Muitas vezes pedem-me dinheiro e cigarros ou então dão-me panfletos e jornais gratuitos. Mas a abordagem desta senhora foi diferente: "Gosta de poesia?". Ao que respondi: "Gosto, mas estou cheio de pressa". E não é mentira. Eu estou sempre cheio de pressa, porque a pressa é a característica daqueles que têm um problema intríseco com a pontualidade, mas que querem resolvê-lo.

O argumento da pressa não a convenceu: "Quer comprar um poema?". E eu: "Mas não tenho dinheiro". Também não é mentira, é que esta brincadeira de escrever em blogues não dá propriamente sustento a ninguém. "Então deixo-o ler sem pagar". Sai uma folha A4 batida a computador salpicada por versos bem versados de dentro de uma capa e comecei a ler. O poema era bom, triste mas bom (mas quem é alguém para dizer se um poema é bom, um poema é um poema e pronto). O olhar triste da mulher ansiava por uma resposta e/ou por uma compra. Tinha de comentar o poema assim de rajada. Pensei em dizer "está giro", mas da última vez que fiz este comentário sobre uma coisa artística a reacção não foi lá das melhores. Parece que estar giro é estar assim coisinho, parece a apreciação do gajo que não gostou mas não tem tomates para o dizer. E não era o caso, quer no poema, quer na outra apreciação a uma performance artística.

O melhor que consegui foi: "É bonito..." (no fundo não é muito diferente de "está giro", pois não?) "Espero apenas que as emoções do sujeito poético não sejam as do autor" (porque de facto o poema era assim a dar para o melancólico). A resposta, pronta e fria: "Mas são. Quer comprar?". Disse que não, e lá vim outra vez com o argumento da pressa e do dinheiro. Nem sequer perguntei o preço.

No resto da minha caminhada pensei: "Se o autor não se distancia do poema é porque ainda não atingiu a maturidade literária, porque as referências autobiográficas directas não aparecem nas fases maduras dos grandes poetas". Enfim... divagações. Mais tarde vim a saber que o tal poema, que não vou tentar reproduzir devido aos direitos de autor que eu tanto prezo, custava cinco euros.

Algumas horas depois vi os salários dos gestores de algumas empresas da bolsa portuguesa e concluí: "Com tanto dinheiro nunca teriam tempo para ler todos os poemas que podem comprar".