quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Texto que se escapuliu da "gaveta"

Johann passeava pelas ruas da cidade. Deambulava pela zona dos antiquários, observando o meio envolvente com minúcia e pormenor. Sabia que procurava algo. O quê, não o podia enunciar. Nunca gostara de teorias cíclicas que determinassem o indivíduo. O inesperado deveria fazer parte do que é, e que por sê-lo se torna esperado depois de não o ter sido.

Errava tropeçando em cadeiras e absorvendo o húmido cheiro da madeira bafienta. A dado momento parou e dirigiu o olhar para a sua direita... e viu-o. Incólume e cercado por velharias. Estava imóvel. Aguardava o fim do prelúdio que não tardaria a dar lugar à fuga. Johann aproximou-se dele e reconheceu todo o seu potencial. Levou-o para casa.

Anoitecera... ambos se contemplavam num diálogo mudo que os preparava para a mútua incorporação. Johann principiou por tacteá-lo deslizando os dedos sobre os seus contornos. Reconheciam-se...

Finalmente Johann pegara no arco e uma primeira manifestação da união ressoou grave pelas paredes de pedra. O errante estava absorto durante o primeiro contacto auditivo que tivera com ele:

- Agora já sei que estás preparado para me ouvir. – dizia-lhe Johann – As formas existem, mas para as preenchermos deparam-se-nos infinitos caminhos que preenchem toda a necessidade de imprevisto que existe.

Sem perder tempo Johann agarrou firmemente o violoncelo e, ininterruptamente, brandia o arco nas cordas e o que era som transformara-se em imagem... e, nesse momento, ele viu: a sua mulher morria, o seu filho morria, viu a sua própria morte. No entanto, a alma continuava protegida da corrupção do que é corrompido. A sua alma possuía as cordas através do arco e as imagens sucediam-se: canhões trucidavam corpos de homens, de mulheres, de crianças; chamas queimavam casas e reduziam pessoas a cinzas. De pó foste feito, pó tornarás a ser. O desfile prosseguia: uma bomba, de grandes proporções, fazia desaparecer tudo o que existia nas periferias do local onde fora arremessada; crianças nasciam condenadas a não viver, fruto da maldição de serem inocentes. Em laboratórios criavam-se vírus mortíferos que dizimaram a espécie humana, inclusive os seus criadores, descendentes de Pandora. Era o advento do apocalipse: chagas e sangue. O que existia fora sugado pelo que não existia e chegou o juízo final. O juiz do trono branco queimou o livro dos mortos e a alma que animava o violoncelo desaparecera, mas como que por inércia, o instrumento prosseguia a sua incógnita melodia. Escreveu-se um novo livro da vida.

O violino desaparecera...

Um homem num paraíso, acompanhado por uma mulher, uma serpente e uma maçã. A expulsão. O irmão que matou o irmão. O recomeço de toda a maldição.

domingo, 14 de outubro de 2007

Luís Filipe Menezes

Eu bem disse que o homem não tinha sex-appeal. Se levasse uma tampa da Soraia Chaves, vá, ainda era como o outro. Agora, levar uma tampa de uma mulher como a Manuela Ferreira Leite é de ferir o orgulho a um gajo.

A mulher que vende poemas (mais uma vez)

Afinal o negócio, tal como eu o planeara, não se concretizou. Tudo porque me esqueci de andar acompanhado por um texto que servisse como moeda de troca por um poema da mulher que os vende no Chiado. Mas sempre aconteceu uma transacção. Acedi, finalmente (também já não era sem tempo), a comprar-lhe um poema, com direito a desconto e tudo (obviamente que não o irei reproduzir aqui, porque respeito os direitos de autor).Também não tenho nenhuma crítica a fazer, nem a pretensão de dizer se é bom, se é mau, se é de qualidade ou não.

Agora, a mulher que vende poemas já me reconhece, já me cumprimenta com dois beijinhos e tudo e até me disse o seu nome e me fala sobre a sua vida. E parece que afinal a poesia avulso é matéria tributável. Uns dias depois do "negócio" reencontrei-a mais uma vez. "Ultimamente não a tenho visto por cá". "É que ultimamente tem andado por aqui a polícia.", responde-me. "A polícia? Vender poemas é crime?", interrogo. "Mais ou menos, tenho de obter uma licença na Câmara de Lisboa para os vender e tenho de me colectar nas Finanças. Só o pedido da licença são 50 euros...". Afinal as poesias, e muito provavelmente as ficções, são matéria tributável.

Percebo agora porque é que a burocracia é inimiga da poesia e, em última instância, do pensamento. De qualquer das formas, se não tiver de pagar imposto de selo, ainda tentarei trocar o meu texto por mais um poema.

sábado, 13 de outubro de 2007

Regresso ao trabalho

Depois de umas férias prolongadas, Deus regressou ao trabalho. Olhou para o estado do mundo e disse: "And now, who cleans up the mess?". E meteu baixa psiquiátrica por tempo indeterminado.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Têm de dar o desconto. Afinal, parece que o autor deste blog está ou esteve apaixonado

Vagueio pela rua contemplando as pessoas que me olham sem me ver. A cada cara desconhecida associo a tua imagem. A recordação do que nunca foi invade-me sem eu dar conta. Imagino-me a passear contigo absorvido numa felicidade imensurável. Sonho-te devaneando no espaço do não feito e do não visto. Poderia dizer que te adoro, mas não me atrevo a manifestar algo que nunca foi nem nunca será. A perfeição da tua imagem aparece-me apenas porque tudo o que possa ser contigo só pode ser em pensamento. Qualquer tentativa de aproximação ao real é uma aproximação ao interdito. Não importa… contento-me em imaginar-te imaginando-me, em viver virtualmente o sentimento de que me vives, a ser em ti ilusoriamente.

domingo, 7 de outubro de 2007

O pensamento piegas da semana

Todos já escreveram sobre ele, mas ainda ninguém o conseguiu definir, caso contrário já não seria necessário escrever sobre ele. O roçar de um arco nas cordas, o soprar de um saxofone, o toque nas teclas de um piano, tentar agarrar a vida para ela não nos fugir... tudo isso é amor. E tudo isso junto não basta para o exprimir.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

O Dia da Implantação da República

Óptimo para coçar os tomates. Do que se conclui que ser-se republicano é ser-se perito em coçar os tomates.

domingo, 30 de setembro de 2007

A velha que anda sempre com um gato preto às costas

Conheceram-se quando ela ainda era ela, num tempo em que ela ainda tinha uma vida. Ele apareceu-lhe, ainda pequeno mas já felino, com os pêlos pretos a reflectirem os feixes de luz. Ela adoptou-o e ele assistiu à sua decadência. Agora, ela percorre as ruas da cidade, à procura de comida aqui e ali, para ela e, principalmente, para o gato. O felino viaja sempre às suas costas, como um timoneiro que lhe indica o destino, sabe-se lá para onde. Ela, cansada de definir o rumo da vida, deixou que fosse o gato a comandá-la, a guiá-la, colina abaixo, colina acima. Ela que agora parece um gato humano, ele que se assemelha a um homem felino. Ela apanhou-lhe os trejeitos, afugenta os pombos, e, há até quem diga, que mia... que lambe as suas próprias mãos. E caminha todos os dias, sem saber para onde. Não importa, o gato preto sabe. Sopra-lhe ao ouvido e ela consegue atribuir um significado a todos os sons que o gato emite. Já sobre a sua vida, os significados esqueceu-os todos. Talvez o gato preto se lembre...

sábado, 29 de setembro de 2007

Directas no PSD

A escolha não era muita. Mas hoje Sócrates vai dormir muito mais descansado. Afinal quem é que vai colocar o país nas mãos de uma versão sem sex-appeal de Santana Lopes?

E por falar em Santana Lopes, parece que a aplicação dos mind games de Mourinho à política podem trazer resultados positivos. Mas o antigo primeiro-ministro falhou no timing. Fossem as directas daqui a dois meses e Santana regressaria em grande. Talvez com Mourinho como presidente do partido houvesse oposição e Sócrates tivesse de começar a mostrar resultados para apresentar em 2009.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

O Mito de Sísifo

Acordar. Espreguiçar. Tomar o pequeno-almoço. Fumar um cigarro. Tomar banho. Vestir. Andar. Beber café. Andar outra vez. Descer escadas. Apanhar o metro. Inventar pensamentos no metro. Despertar do sono criativo e sair do metro. Subir escadas. Subir outras escadas (mas estas são mais fácéis porque rolantes). Andar. Chegar ao trabalho. Sentar à frente do computador. Produzir. Pausa para almoço. Sentar novamente à frente do computador. Produzir. Sair do trabalho. Descer escadas rolantes. Descer escadas apenas. Apanhar o metro. Inventar pensamentos no metro (caso o dia de produção não tenha liquefeito a mente). Sair do metro. Subir escadas. Chegar a casa. Suspirar. Fazer jantar. Jantar. Ver programas estúpidos na televisão. Dormir.

Repetir tudo no dia seguinte e no dia depois de amanhã e em todos os dias depois desses. Ser Sísifo no século XXI é mais difícil que rolar eternamente uma pedra de mármore até ao cume de uma montanha.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

O dia em que o tempo tirou férias

Houve um dia em que o sol não nasceu e em que a manhã não apareceu. As pessoas não acordaram para cumprir as suas rotinas diárias, os que não se deitaram ficaram imobilizados num sono profundo, petrificados nos passeios das ruas, os pássaros não cantaram, os jornais ficaram retidos nas gráficas, com os operários colados às máquinas, presos no tempo que deixou de o ser. O lixo não apodreceu e os cadáveres já não se decompunham. O vento não soprou e a terra, essa, não girou... permaneceu imutável como se todo o Universo tivesse sido congelado. O curso dos rios parou, as ondas deixaram de embater na areia das praias e nas rochas das falésias... Tudo deixou de ser tudo e passou a ser outra coisa qualquer que ninguém poderia saber o que era. As nuvens ficaram fixas no céu, estáticas como se tivessem sido pregadas num papel de cenário sem princípio nem fim. Os corações cessaram os seus batimentos e os cérebros não emanaram mais infinitos impulsos magnéticos (ou serão eléctricos?).

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Fundamentação da Merdafísica dos Costumes

Podia ser uma obra de Kant, mas parece que o filósofo alemão era demasiado asseado para escolher este título para um tratado. Preferiu escolher Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Ora, se os costumes estão para além do mundo físico, como é que poderão ser Merdafísica? Porque cumprir o dever pelo dever ou agir em conformidade com o dever guiados pela razão pode, muitas vezes, dar merda. E não só no sentido metafísico do termo. Ok, confesso... é um post triste e algo merdoso.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Outra vez a mulher que vende poemas

Já me reencontrei mais duas ou três vezes com a mulher que vende poemas. Ela no princípio aparenta não me reconhecer, mas depois lá se lembra: "Ah pois, você é o tal que não tem dinheiro para comprar poemas". Ao que eu não sei como reagir, porque se por um lado não faço tenções em gastar dinheiro a comprar poemas avulso, por outro ninguém gosta de se ver confrontado com a sua condição de pelintra.

Depois de várias noites sem dormir, lá pensei em arranjar uma solução mais ou menos honrosa para a próxima vez que a mulher me tentar vender um poema. Proponho-lhe aquilo a que nos mercados financeiros se chama um swap, ou, mais simples, uma troca (eu utilizo a gíria económica porque estou a encarar este assunto como se de uma grande transacção em bolsa se tratasse). E foi isso que aconteceu hoje. Saí do metro do Chiado e vi-a. Ainda hesitei, mas acabei por avançar resoluto na sua direcção. Ela dirigiu-se para mim e nem a deixei perguntar se eu gostava de poesia. Disse logo: "Já nos conhecemos". E ela: "Ah pois, você é o tal que não tem dinheiro para comprar poemas". Não me deixo amedrontar: "Pois, mas, se quiser, da próxima vez eu trago um poema meu e trocamos". Resposta: "Tudo bem, traga. E se eu achar que for bom trocamos". E eu, que pensava ingenuamente que um poema é um poema e pronto, fiquei assim um pouco para o atrapalhado. É que parecendo que não, a minha poesia é assim a dar para o fraquinho. Vá, ok, vou ser sincero... É assim um bocadinho muito má.

Tinha de pensar num plano de recurso. E rápido. Lá lhe perguntei: "E pode ser prosa?". Ela disse que sim, até porque escreve prosa poética e tudo. Fiquei mais aliviado e ficou apalavrada a altura do "negócio". Ou este Sábado, ou durante a próxima semana. Eu estava a pensar em levar para a troca o texto da "Mulher que Vende Poemas". Mas, se me quiserem ajudar, aceito sugestões. E tenho de publicar um "o Pensamentos SGPS errou". Parece que afinal o poema só custa dois euros.

PS - Peço desculpa pela ausência mais ou menos prolongada e por não ter acompanhado os vossos blogues (vou tratar do assunto esta semana).

PS I - Desafio-vos a irem ao Chiado este Sábado ou durante a próxima semana para comprarem um poema à tal mulher, ou então, para lhe sugerirem trocas. Mas, apesar de ela me dizer que iria estar por lá naquela altura, não posso garantir que efectivamente isso aconteça.

PS II - A Gasolina farta-se de me mimar. Agora distinguiu-me com um Certificado do Blog. Já estou a ficar sem jeito. Mas são pessoas como ela que nos estimulam a escrever e a pensar mais e mais. Obrigado.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Crónicas Insanas I

Zé era um rapaz forte. Admirado por todos os da aldeia, cobiçado pelas raparigas e tudo o mais. Zé, como tantos outros, teve o azar de ir às sortes. Pior, teve o azar de as sortes lhe terem batido à porta, levarem-no para Lisboa e embarcaram-no num barco. Tiraram-no do barco e despejaram-no na Guiné. Zé só por duas vezes tinha saído da sua aldeia, para fazer o exame da quarta classe e para ir às sortes. À terceira foi de vez. A sorte levou-o a ver mundo. Levou-o a ver a capital e a galgar o mar, esse elemento que nunca vira.

Mas as sortes são matreiras. Despejaram-no numa terra de guerra, onde tinha de matar para não morrer. Mas Zé não desanimava, apesar do barulho das armas e da guerra e dos silêncios forçados no mato lhe revolverem os pensamentos. Era corajoso e, para além disso, as moças escuras não ofereciam grande resistência aos seus avanços libidinosos. E, quando se faziam mais difíceis, Zé não se deixava amolecer. Afinal de contas um homem com uma arma impõe respeito e, pior que isso, perde toda a inocência e ganha toda a perversão.

Até ao dia em que uma moça qualquer que violara lhe propôs uma sessão de sexo, onde lhe percorreu todo o corpo, mas todo mesmo, com umas ervas esquisitas. Zé não se importou. Era exótico até. E imaginava que nenhuma moça da aldeia seria despudorada o suficiente para igualar aquela moça de mamas rijas como granito.

Dias depois Zé começou a ter dificuldades em mijar. "Foda-se, pareço que estou a mijar vidros porra!", exclamava cada vez que tinha de se aliviar. Entretanto a guerra acabou e Zé regressou à aldeia. Mas já não era mais o rapaz forte, admirado por todos, cobiçado pelas raparigas e tudo o mais. Foi são, regressou insano. Comentava-se até que o "coiso" de Zé tinha caído por causa das mezinhas das africanas. E ficou conhecido como o "Zé das Telhas", a quem todos pagavam minis no clube recreativo e que, sempre que ouvia o barulho de um avião, fugia de casa em pânico e a gritar: "Estão a roubar-me as telhas de casa!"

Mas nunca ninguém se importou muito com isso. Tinham mais preocupações que as telhas do Zé e, assim como assim, a sua casa não era bem uma casa. Parecia mais um palheiro que outra coisa.

domingo, 19 de agosto de 2007

Uma questão ocular

Olhas-te ao espelho,
A cara enrugada pelo tempo,
A pele ressequida pela erosão das horas.

Olhas a vida,
Sabes que a existência
Será sempre o que foi.

Olhas a tua mulher,
Recordas-te tenuemente dos laivos de paixão
Que te invadiram nos teus tempos de juventude.

Olhas para dentro de ti,
Para além das tuas entranhas
E o que vês?

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Apontamentos sobre a Igreja Global da Democracia de Deus, a nova seita da moda

Pastor
Se Deus pôs a morte no meu caminho, foi para mostrar que Ele tem a capacidade de ressuscitar, tá entendendo? É por isso que existem nódoas na roupa, para mostrar a eficácia dos detergentes… Se existe morte, é para provar que existe ressurreição e que Cristo ressuscitou ao terceiro dia…

Agnóstico
Mas eu nunca vi um cadáver deixar de ser cadáver…

Pastor
Ah moleque, você não tem mesmo fé nenhuma, pois não? Se deixou de haver ressurreições foi porque Deus se esqueceu de passar pelo notário para certificar as habilitações e alvarás dos seus representantes, tá entendendo? A I. G. D. D. é a Igreja Global da Democracia de Deus! Igreja porque somos uma igreja, global porque estamos em tempo de globalização (se bem que em África não haja água potável), democracia porque houve uma revolução lá no paraíso celeste, um regicídio e aboliram a monarquia e aquilo passou a ser uma democracia, e Deus continua sendo Deus.

Agnóstico
Mas se houve um regicídio no céu, como é que é possível que Deus tenha sobrevivido?

Pastor
Pertinente a sua questão. Mas Deus é imortal, assassinaram ele, mas ele se ressuscitou. Aí ele encabeçou o primeiro governo, depois o segundo, o terceiro e por aí adiante… Deus, Deus, Deus, Deus…

Agnóstico
Porque é que só estás a invocar o nome de Deus?

Pastor
Ué! Tou invocando Deus. O primeiro que foi rei, o segundo que foi chefe de um governo de esquerda, o terceiro que foi chefe de um governo centrista e o quarto que foi chefe de um governo de direita… Deus! Deus! Deus! Deus! Segundo o decreto-lei celestial aprovado em conselho de arcanjos numa data qualquer perdida na eternidade, e usando os poderes que me foram delegados peço que esta tijuca loura seja ressuscitada…

Secretária de Deus
Vou enviar o seu requerimento para o tribunal da relação dos santos, que irá submeter o seu parecer ao tribunal constitucional dos apóstolos, que irá enviar o acórdão para o conselho angelical de magistratura, que enviarão a sua sugestão para o bastonário da ordem dos arcanjos (só para não haver frissons mediáticos), e finalmente o caso será apreciado pelo supremo tribunal. O veredicto chegará depois a Deus que o analisará, e irá deliberar se veta ou não a decisão, ou se interpõe recurso…
(to be continued)

domingo, 12 de agosto de 2007

Retratos de vidas impossíveis de retratar III (conclusão)

Retratos de vidas impossíveis de retratar I
Retratos de vidas impossíveis de retratar II

– E sabes que mais? Escuta bem o que te vou dizer…Só um amigo é que te diria o que te vou dizer…

– Diz…

– Estás a ver as pedras dos passeios?

– Sim…

– Aquelas brancas e pretas…

– As brancas sei, as outras não são bem pretas, são mais azuis escuras…

– Preto ou azul-escuro tanto faz, o que importa é que umas são claras e outras escuras, o fundamental é o contraste, nada mais…

– Está bem…

– Quando andares nos passeios nunca pises as pedras pretas…

– Porquê?

– MIIIIIIIIIIIIINA!!!!


– Obrigado pelo conselho…

– Aquilo houve gajos que vieram de lá completamente doidos e que fugiram, mas eu nunca fugi…

– Acho que precisas de te tratar…

– De me tratar eu? EU... EU... Nem pensar. Eu não preciso de me tratar, também nunca precisei de fugir ouviste?

– As pedras escuras da calçada não são minas…

– Ai isso é que são… são… eu sei que são… a minha filha… morreu assim… pisou uma pedra dessas…

– Não, não pisou…

– Mas tu nem conheceste a minha filha?

– Infelizmente conheço…

– Também me saíste cá um badameco… conheceste a minha filha e dizes infelizmente?

– Fui eu que a matei… atropelei-a…

– Atropelaste agora… ela pisou uma pedra e explodiu…

– Atropelei-a… já te disse… não adianta fugires às coisas…

– Eu nunca fujo a nada, ouviste? Atropelaste a minha filha? Se dizes que sim eu não fujo a isso, mas eu sei que ela pisou uma pedra preta da calçada e que morreu… achas que eu acredito que o melhor amigo da minha infância a atropelou? Pelo Amor de Deus!!

– Mas eu atropelei-a…

– Pagas tu a conta, não pagas? Afinal não foste à guerra…

– Vais-te embora?

– Sim…

– Mas eu estou a dizer-te que atropelei a tua filha…

– Já te disse que ela pisou uma pedra da calçada… Porta-te bem maçarico…

– Eh pá… não fujas…

– Já te disse que nunca fugi e não era agora que o iria fazer…

in Café por Acaso

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Sensibilidades

Insensível ao toque... insensível aos sons... insensível a tudo o que não se vê, insensível ao invisível, ao que só se consegue percepcionar quando se ama, ao que só existe se existir sentir, à vida, aos outros, às sensações, às tristezas, às alegrias, à saudade e ao raio que o parta também.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

A Assembleia Geral do BCP

Que os portugueses são danados para brincadeiras, não é novidade nenhuma. D. Afonso Henriques chateou-se e decidiu andar à batatada com a mãe. Depois de expulsar os espanhóis, D. João I estava aborrecido e decidiu invadir Ceuta. O infante D. Henrique que não tinha nada com que se entreter pôs-se a inventar embarcações e instrumentos de navegação. Já no século XX, o engenheiro Jardim Gonçalves, num dia em que estava mais aborrecido resolveu criar um banco, vá, um banquinho, assim uma coisita humilde.

Brincadeira atrás de brincadeira, muitas delas meritórias é certo, o engenheiro lá conseguiu transformar o tal banquito na maior instituição financeira do país. Quando se fartou um bocado do brinquedo que criou, lá decidiu convidar um amiguinho para lhe fazer companhia nas brincadeiras. Paulo Teixeira Pinto, o tal amiguinho, aproveitou o brinquedo para se lançar à Roménia e ao BPI. Não correu lá muito bem e Jardim Gonçalves quis o brinquedo de regresso para ele com receio que Teixeira Pinto causasse estragos. Os dois procuraram apoios, de gente endinheirada que também quer brincar um bocadinho (então o Berardo, esse é mesmo danado, até quer jogar Championship Manager a sério e tudo). Resultado: a brincadeira pode custar milhões aos accionistas (e há por aí alguns que se queixam que o banco andou a brincar com eles) e pode afectar milhões de pessoas que confiam no tal banquito para guardar as suas poupanças. Com tantos adiamentos e retiradas de pontos a questão que fica é: Ninguém tem mão no BCP?

terça-feira, 31 de julho de 2007

Retratos de vidas impossíveis de retratar

(continuação)

– Nunca saberás o que aquilo foi… houve gajos que vieram de lá sem uma quarta-feira… mesmo do meio para as pontas… houve um gajo da minha companhia, acho que era o Dias, ou seria o Correia? Já nem sei… o gajo meteu-se lá com uma preta, nem imaginas… a gaja besuntou-lhe o coiso com umas ervas manhosas e aquilo acabou por cair… Dizem que agora o gajo endoideceu…

– Pudera…

– Quando passa um avião o gajo foge de casa a gritar que lhe estão a roubar as telhas…

– E a ti?

– A mim o quê?

– Aquilo não te fez impressão?

– Eh pá, claro que fez… Há coisas que fiz que nunca contei à minha mulher… Há coisas que ainda hoje sonho com elas… mas é a vida… o que vale é que nunca fugi, ouviste bem? Nunca fugi…

– Chegaste a matar alguém?

– Merda de pergunta… se um gajo vai à guerra tem de matar…


– E não sentes remorsos?

– Remorsos? Eu… que nunca fugi? Há lá agora espaço para remorsos…

– Mas eu sinto…

– Bem me parecia… sentes remorsos por não ter ido à guerra?

– Não…

– Então?

– Matei uma mulher…

– Deixa lá isso, se soubesses as que matei só por não quererem ir para a cama comigo…

– A sério??!!

– Claro que não… estava só a brincar

– Mas mataste gente?

– Já te disse que sim... Muita… Houve uma vez que nos mandaram enterrar pessoas de uma aldeia até ao pescoço e os oficiais começaram a fazer pontaria às cabeças rentes ao chão com pedras e passaram-lhes com os jipes por cima… julgas que isto sai da cabeça de um gajo? Julgas que não choro? Às vezes choro mas nunca fugi… quero que saibas que nunca fugi…

– Sim… já sei que nunca fugiste… Mas eu não consigo viver com a morte de alguém na minha consciência…

– Mas mataste de propósito?

– Não… ia a conduzir e atropelei uma mulher… ofusquei-me com a luz do sol e atropelei-a… não me recordo muito bem desse momento, só me lembro de um fino fio de sangue escorrer-lhe pelo lado direito da boca…

– Já pensaste que se calhar não tiveste culpa?

– Não importa… a morte daquela mulher não me deixa dormir… o sentimento de culpa é tanto que parece que o mundo vai acabar…

in Café por Acaso