segunda-feira, 21 de julho de 2008

Vêgê frita durante 21 horas, e você?


Não sei, ainda não experimentei a minha capacidade e resistência de fritar activamente. Já passivamente, acho que estou sempre a ser frito, tipo aquele óleo usado nas tascas perto do Largo do Carmo. É que se não é alguém armado em Vêgê é o raio do tempo a fazer-me acreditar que o horizonte não passa do limite ilusório de uma infinda frigideira.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Carta de um narrador a uma personagem rebelde

Quando imagino o que fazes, vejo-te. A penumbra que me envolve dissolve-se... a dinâmica do meu ser compatibiliza-se com a do teu. Nesses momentos reduzo-me ao narrado e permuto-me em ti. No entanto, o retorno que é eterno traz de volta a penumbra obscura que te encobre. O momento em que fui como tu torna-se passado. Só a memória do que se passou me permanece, mas também ela vai sendo embrenhada pela penumbra, até que, finalmente, se desvanece. Contudo, a recordação da memória ainda me fica, e sei que existiu um conjunto de acontecimentos emparelhados que proporcionaram um instante que memorizei.


Não sei o que fizeste ontem, talvez ninguém saiba. Posso usar o pretexto de desconhecer o que és por não existires... é uma escapatória consistente, paradoxal no entanto. Se te penso é porque existes, se te referencio és. Não se pode referenciar nem pensar o inexistente. O Nada deixa de ser Nada a partir do momento em que é enunciado, porque é um conceito, uma noção, uma ideia, uma palavra.


O que me perturba não é o facto de não existires, porque existes, mesmo que seja somente em-mim. O que realmente me perturba é o facto de não saber como existes. Deparo-me com hipóteses infinitesimais do que és, verosímeis até, e não sei qual a real, nem sequer se a real existe.


Nasce o impasse...

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Crise social? Nãã! É mesmo desespero...

Parece que se sente assim um "mal estar difuso no país", que pode desembocar assim para uma qualquer coisa difícil de prever, do género crise social, e que, com toda a certeza, não trará nada de bom. O aviso é feito pela Associação para o Desenvolvimento Económico e Social (SEDES) e, quem quiser saber mais detalhes, pode carregar no link para ver.

Talvez tenham descoberto o perigo tarde demais. Se calhar a coisa já não vai lá, isto porque as perspectivas do comum dos portugueses, que não têm a sorte de serem gestores ou filhos de banqueiros, não são nada animadoras. Como diria Kierkegaard, o desespero é o não esperar e é a mais mortal das doenças. Quantos já desistiram de sonhar, de ter objectivos, de se cumprirem a si próprios? Sobrevive-se dia-a-dia, sem nada esperar. E o nada esperar é o desespero, a mais mortal das doenças, que muitas vezes começa assim com um "mal estar difuso".

sábado, 16 de fevereiro de 2008

A consulta

Os médicos deviam ser todos autores de tragédias gregas. Ninguém como eles domina tão bem os conceitos da hybris e do pathos. E, para além disso, são mestres em entrelaçarem um mythos uno e perfeito com os numerozinhos que vêem nos resultados do exame. Exímios em conseguirem levar o paciente a atingir a catarsis. Até parece que em vez de lerem os compêndios de medicina, passaram, isso sim, seis anos a esmiuçar a Poética de Aristóteles. Exemplifico.

Dia 17 de Outubro, dia do último post neste blog, fui ao médico. Vinte minutos de consulta, onde o clínico fazia perguntas. Ia respondendo. Ele comentava os items constantes das folhas dos exames. "Isto está bem". "Estes níveis estão dentro do normal". De repente, assim do nada, pergunta: "E costuma beber?". Hesito, e dado que até é uma consulta de medicina no trabalho e não confio muito em sigilos profissionais, respondo: "Ah, sim. Por vezes, aos fins-de-semana, bebo uns copos com os amigos... mas nada de especial". Ele anota, parece não fazer caso. E olha para o electrocardiograma. "Você pratica desporto? É que tem coração de atleta". E com este comentário pensei, "eh pá, estou mesmo em boa forma!".

Entretanto, o tempo lá vai passando e a consulta aproxima-se do fim. De repente, o doutor tira uma folha que estava guardada à parte. "Pois, mas há aqui um problemazito". Pronto, as piores ideias vêm-me à cabeça, começo a sofrer o pathos dos heróis das tragédias gregas. E onde, quando e como é que eu desafiei o destino? De cara séria, o médico diz: "Aqui os seus níveis hepáticos estão muito acima do normal". Ok, já percebi, o álcool. Pois. Aí é que foi a hybris, utilizar o álcool para desafiar o destino. Moral da história: desde 17 de Outubro que não bebo. É aquilo a que Aristóteles chamaria a purificação catártica. E desde que bebo que não escrevo (tirando agora esta tentativa), tipo Édipo de olhos vazados.

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

Texto que se escapuliu da "gaveta"

Johann passeava pelas ruas da cidade. Deambulava pela zona dos antiquários, observando o meio envolvente com minúcia e pormenor. Sabia que procurava algo. O quê, não o podia enunciar. Nunca gostara de teorias cíclicas que determinassem o indivíduo. O inesperado deveria fazer parte do que é, e que por sê-lo se torna esperado depois de não o ter sido.

Errava tropeçando em cadeiras e absorvendo o húmido cheiro da madeira bafienta. A dado momento parou e dirigiu o olhar para a sua direita... e viu-o. Incólume e cercado por velharias. Estava imóvel. Aguardava o fim do prelúdio que não tardaria a dar lugar à fuga. Johann aproximou-se dele e reconheceu todo o seu potencial. Levou-o para casa.

Anoitecera... ambos se contemplavam num diálogo mudo que os preparava para a mútua incorporação. Johann principiou por tacteá-lo deslizando os dedos sobre os seus contornos. Reconheciam-se...

Finalmente Johann pegara no arco e uma primeira manifestação da união ressoou grave pelas paredes de pedra. O errante estava absorto durante o primeiro contacto auditivo que tivera com ele:

- Agora já sei que estás preparado para me ouvir. – dizia-lhe Johann – As formas existem, mas para as preenchermos deparam-se-nos infinitos caminhos que preenchem toda a necessidade de imprevisto que existe.

Sem perder tempo Johann agarrou firmemente o violoncelo e, ininterruptamente, brandia o arco nas cordas e o que era som transformara-se em imagem... e, nesse momento, ele viu: a sua mulher morria, o seu filho morria, viu a sua própria morte. No entanto, a alma continuava protegida da corrupção do que é corrompido. A sua alma possuía as cordas através do arco e as imagens sucediam-se: canhões trucidavam corpos de homens, de mulheres, de crianças; chamas queimavam casas e reduziam pessoas a cinzas. De pó foste feito, pó tornarás a ser. O desfile prosseguia: uma bomba, de grandes proporções, fazia desaparecer tudo o que existia nas periferias do local onde fora arremessada; crianças nasciam condenadas a não viver, fruto da maldição de serem inocentes. Em laboratórios criavam-se vírus mortíferos que dizimaram a espécie humana, inclusive os seus criadores, descendentes de Pandora. Era o advento do apocalipse: chagas e sangue. O que existia fora sugado pelo que não existia e chegou o juízo final. O juiz do trono branco queimou o livro dos mortos e a alma que animava o violoncelo desaparecera, mas como que por inércia, o instrumento prosseguia a sua incógnita melodia. Escreveu-se um novo livro da vida.

O violino desaparecera...

Um homem num paraíso, acompanhado por uma mulher, uma serpente e uma maçã. A expulsão. O irmão que matou o irmão. O recomeço de toda a maldição.

domingo, 14 de outubro de 2007

Luís Filipe Menezes

Eu bem disse que o homem não tinha sex-appeal. Se levasse uma tampa da Soraia Chaves, vá, ainda era como o outro. Agora, levar uma tampa de uma mulher como a Manuela Ferreira Leite é de ferir o orgulho a um gajo.

A mulher que vende poemas (mais uma vez)

Afinal o negócio, tal como eu o planeara, não se concretizou. Tudo porque me esqueci de andar acompanhado por um texto que servisse como moeda de troca por um poema da mulher que os vende no Chiado. Mas sempre aconteceu uma transacção. Acedi, finalmente (também já não era sem tempo), a comprar-lhe um poema, com direito a desconto e tudo (obviamente que não o irei reproduzir aqui, porque respeito os direitos de autor).Também não tenho nenhuma crítica a fazer, nem a pretensão de dizer se é bom, se é mau, se é de qualidade ou não.

Agora, a mulher que vende poemas já me reconhece, já me cumprimenta com dois beijinhos e tudo e até me disse o seu nome e me fala sobre a sua vida. E parece que afinal a poesia avulso é matéria tributável. Uns dias depois do "negócio" reencontrei-a mais uma vez. "Ultimamente não a tenho visto por cá". "É que ultimamente tem andado por aqui a polícia.", responde-me. "A polícia? Vender poemas é crime?", interrogo. "Mais ou menos, tenho de obter uma licença na Câmara de Lisboa para os vender e tenho de me colectar nas Finanças. Só o pedido da licença são 50 euros...". Afinal as poesias, e muito provavelmente as ficções, são matéria tributável.

Percebo agora porque é que a burocracia é inimiga da poesia e, em última instância, do pensamento. De qualquer das formas, se não tiver de pagar imposto de selo, ainda tentarei trocar o meu texto por mais um poema.

sábado, 13 de outubro de 2007

Regresso ao trabalho

Depois de umas férias prolongadas, Deus regressou ao trabalho. Olhou para o estado do mundo e disse: "And now, who cleans up the mess?". E meteu baixa psiquiátrica por tempo indeterminado.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Têm de dar o desconto. Afinal, parece que o autor deste blog está ou esteve apaixonado

Vagueio pela rua contemplando as pessoas que me olham sem me ver. A cada cara desconhecida associo a tua imagem. A recordação do que nunca foi invade-me sem eu dar conta. Imagino-me a passear contigo absorvido numa felicidade imensurável. Sonho-te devaneando no espaço do não feito e do não visto. Poderia dizer que te adoro, mas não me atrevo a manifestar algo que nunca foi nem nunca será. A perfeição da tua imagem aparece-me apenas porque tudo o que possa ser contigo só pode ser em pensamento. Qualquer tentativa de aproximação ao real é uma aproximação ao interdito. Não importa… contento-me em imaginar-te imaginando-me, em viver virtualmente o sentimento de que me vives, a ser em ti ilusoriamente.

domingo, 7 de outubro de 2007

O pensamento piegas da semana

Todos já escreveram sobre ele, mas ainda ninguém o conseguiu definir, caso contrário já não seria necessário escrever sobre ele. O roçar de um arco nas cordas, o soprar de um saxofone, o toque nas teclas de um piano, tentar agarrar a vida para ela não nos fugir... tudo isso é amor. E tudo isso junto não basta para o exprimir.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

O Dia da Implantação da República

Óptimo para coçar os tomates. Do que se conclui que ser-se republicano é ser-se perito em coçar os tomates.

domingo, 30 de setembro de 2007

A velha que anda sempre com um gato preto às costas

Conheceram-se quando ela ainda era ela, num tempo em que ela ainda tinha uma vida. Ele apareceu-lhe, ainda pequeno mas já felino, com os pêlos pretos a reflectirem os feixes de luz. Ela adoptou-o e ele assistiu à sua decadência. Agora, ela percorre as ruas da cidade, à procura de comida aqui e ali, para ela e, principalmente, para o gato. O felino viaja sempre às suas costas, como um timoneiro que lhe indica o destino, sabe-se lá para onde. Ela, cansada de definir o rumo da vida, deixou que fosse o gato a comandá-la, a guiá-la, colina abaixo, colina acima. Ela que agora parece um gato humano, ele que se assemelha a um homem felino. Ela apanhou-lhe os trejeitos, afugenta os pombos, e, há até quem diga, que mia... que lambe as suas próprias mãos. E caminha todos os dias, sem saber para onde. Não importa, o gato preto sabe. Sopra-lhe ao ouvido e ela consegue atribuir um significado a todos os sons que o gato emite. Já sobre a sua vida, os significados esqueceu-os todos. Talvez o gato preto se lembre...

sábado, 29 de setembro de 2007

Directas no PSD

A escolha não era muita. Mas hoje Sócrates vai dormir muito mais descansado. Afinal quem é que vai colocar o país nas mãos de uma versão sem sex-appeal de Santana Lopes?

E por falar em Santana Lopes, parece que a aplicação dos mind games de Mourinho à política podem trazer resultados positivos. Mas o antigo primeiro-ministro falhou no timing. Fossem as directas daqui a dois meses e Santana regressaria em grande. Talvez com Mourinho como presidente do partido houvesse oposição e Sócrates tivesse de começar a mostrar resultados para apresentar em 2009.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

O Mito de Sísifo

Acordar. Espreguiçar. Tomar o pequeno-almoço. Fumar um cigarro. Tomar banho. Vestir. Andar. Beber café. Andar outra vez. Descer escadas. Apanhar o metro. Inventar pensamentos no metro. Despertar do sono criativo e sair do metro. Subir escadas. Subir outras escadas (mas estas são mais fácéis porque rolantes). Andar. Chegar ao trabalho. Sentar à frente do computador. Produzir. Pausa para almoço. Sentar novamente à frente do computador. Produzir. Sair do trabalho. Descer escadas rolantes. Descer escadas apenas. Apanhar o metro. Inventar pensamentos no metro (caso o dia de produção não tenha liquefeito a mente). Sair do metro. Subir escadas. Chegar a casa. Suspirar. Fazer jantar. Jantar. Ver programas estúpidos na televisão. Dormir.

Repetir tudo no dia seguinte e no dia depois de amanhã e em todos os dias depois desses. Ser Sísifo no século XXI é mais difícil que rolar eternamente uma pedra de mármore até ao cume de uma montanha.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

O dia em que o tempo tirou férias

Houve um dia em que o sol não nasceu e em que a manhã não apareceu. As pessoas não acordaram para cumprir as suas rotinas diárias, os que não se deitaram ficaram imobilizados num sono profundo, petrificados nos passeios das ruas, os pássaros não cantaram, os jornais ficaram retidos nas gráficas, com os operários colados às máquinas, presos no tempo que deixou de o ser. O lixo não apodreceu e os cadáveres já não se decompunham. O vento não soprou e a terra, essa, não girou... permaneceu imutável como se todo o Universo tivesse sido congelado. O curso dos rios parou, as ondas deixaram de embater na areia das praias e nas rochas das falésias... Tudo deixou de ser tudo e passou a ser outra coisa qualquer que ninguém poderia saber o que era. As nuvens ficaram fixas no céu, estáticas como se tivessem sido pregadas num papel de cenário sem princípio nem fim. Os corações cessaram os seus batimentos e os cérebros não emanaram mais infinitos impulsos magnéticos (ou serão eléctricos?).

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Fundamentação da Merdafísica dos Costumes

Podia ser uma obra de Kant, mas parece que o filósofo alemão era demasiado asseado para escolher este título para um tratado. Preferiu escolher Fundamentação da Metafísica dos Costumes. Ora, se os costumes estão para além do mundo físico, como é que poderão ser Merdafísica? Porque cumprir o dever pelo dever ou agir em conformidade com o dever guiados pela razão pode, muitas vezes, dar merda. E não só no sentido metafísico do termo. Ok, confesso... é um post triste e algo merdoso.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Outra vez a mulher que vende poemas

Já me reencontrei mais duas ou três vezes com a mulher que vende poemas. Ela no princípio aparenta não me reconhecer, mas depois lá se lembra: "Ah pois, você é o tal que não tem dinheiro para comprar poemas". Ao que eu não sei como reagir, porque se por um lado não faço tenções em gastar dinheiro a comprar poemas avulso, por outro ninguém gosta de se ver confrontado com a sua condição de pelintra.

Depois de várias noites sem dormir, lá pensei em arranjar uma solução mais ou menos honrosa para a próxima vez que a mulher me tentar vender um poema. Proponho-lhe aquilo a que nos mercados financeiros se chama um swap, ou, mais simples, uma troca (eu utilizo a gíria económica porque estou a encarar este assunto como se de uma grande transacção em bolsa se tratasse). E foi isso que aconteceu hoje. Saí do metro do Chiado e vi-a. Ainda hesitei, mas acabei por avançar resoluto na sua direcção. Ela dirigiu-se para mim e nem a deixei perguntar se eu gostava de poesia. Disse logo: "Já nos conhecemos". E ela: "Ah pois, você é o tal que não tem dinheiro para comprar poemas". Não me deixo amedrontar: "Pois, mas, se quiser, da próxima vez eu trago um poema meu e trocamos". Resposta: "Tudo bem, traga. E se eu achar que for bom trocamos". E eu, que pensava ingenuamente que um poema é um poema e pronto, fiquei assim um pouco para o atrapalhado. É que parecendo que não, a minha poesia é assim a dar para o fraquinho. Vá, ok, vou ser sincero... É assim um bocadinho muito má.

Tinha de pensar num plano de recurso. E rápido. Lá lhe perguntei: "E pode ser prosa?". Ela disse que sim, até porque escreve prosa poética e tudo. Fiquei mais aliviado e ficou apalavrada a altura do "negócio". Ou este Sábado, ou durante a próxima semana. Eu estava a pensar em levar para a troca o texto da "Mulher que Vende Poemas". Mas, se me quiserem ajudar, aceito sugestões. E tenho de publicar um "o Pensamentos SGPS errou". Parece que afinal o poema só custa dois euros.

PS - Peço desculpa pela ausência mais ou menos prolongada e por não ter acompanhado os vossos blogues (vou tratar do assunto esta semana).

PS I - Desafio-vos a irem ao Chiado este Sábado ou durante a próxima semana para comprarem um poema à tal mulher, ou então, para lhe sugerirem trocas. Mas, apesar de ela me dizer que iria estar por lá naquela altura, não posso garantir que efectivamente isso aconteça.

PS II - A Gasolina farta-se de me mimar. Agora distinguiu-me com um Certificado do Blog. Já estou a ficar sem jeito. Mas são pessoas como ela que nos estimulam a escrever e a pensar mais e mais. Obrigado.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Crónicas Insanas I

Zé era um rapaz forte. Admirado por todos os da aldeia, cobiçado pelas raparigas e tudo o mais. Zé, como tantos outros, teve o azar de ir às sortes. Pior, teve o azar de as sortes lhe terem batido à porta, levarem-no para Lisboa e embarcaram-no num barco. Tiraram-no do barco e despejaram-no na Guiné. Zé só por duas vezes tinha saído da sua aldeia, para fazer o exame da quarta classe e para ir às sortes. À terceira foi de vez. A sorte levou-o a ver mundo. Levou-o a ver a capital e a galgar o mar, esse elemento que nunca vira.

Mas as sortes são matreiras. Despejaram-no numa terra de guerra, onde tinha de matar para não morrer. Mas Zé não desanimava, apesar do barulho das armas e da guerra e dos silêncios forçados no mato lhe revolverem os pensamentos. Era corajoso e, para além disso, as moças escuras não ofereciam grande resistência aos seus avanços libidinosos. E, quando se faziam mais difíceis, Zé não se deixava amolecer. Afinal de contas um homem com uma arma impõe respeito e, pior que isso, perde toda a inocência e ganha toda a perversão.

Até ao dia em que uma moça qualquer que violara lhe propôs uma sessão de sexo, onde lhe percorreu todo o corpo, mas todo mesmo, com umas ervas esquisitas. Zé não se importou. Era exótico até. E imaginava que nenhuma moça da aldeia seria despudorada o suficiente para igualar aquela moça de mamas rijas como granito.

Dias depois Zé começou a ter dificuldades em mijar. "Foda-se, pareço que estou a mijar vidros porra!", exclamava cada vez que tinha de se aliviar. Entretanto a guerra acabou e Zé regressou à aldeia. Mas já não era mais o rapaz forte, admirado por todos, cobiçado pelas raparigas e tudo o mais. Foi são, regressou insano. Comentava-se até que o "coiso" de Zé tinha caído por causa das mezinhas das africanas. E ficou conhecido como o "Zé das Telhas", a quem todos pagavam minis no clube recreativo e que, sempre que ouvia o barulho de um avião, fugia de casa em pânico e a gritar: "Estão a roubar-me as telhas de casa!"

Mas nunca ninguém se importou muito com isso. Tinham mais preocupações que as telhas do Zé e, assim como assim, a sua casa não era bem uma casa. Parecia mais um palheiro que outra coisa.

domingo, 19 de agosto de 2007

Uma questão ocular

Olhas-te ao espelho,
A cara enrugada pelo tempo,
A pele ressequida pela erosão das horas.

Olhas a vida,
Sabes que a existência
Será sempre o que foi.

Olhas a tua mulher,
Recordas-te tenuemente dos laivos de paixão
Que te invadiram nos teus tempos de juventude.

Olhas para dentro de ti,
Para além das tuas entranhas
E o que vês?

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Apontamentos sobre a Igreja Global da Democracia de Deus, a nova seita da moda

Pastor
Se Deus pôs a morte no meu caminho, foi para mostrar que Ele tem a capacidade de ressuscitar, tá entendendo? É por isso que existem nódoas na roupa, para mostrar a eficácia dos detergentes… Se existe morte, é para provar que existe ressurreição e que Cristo ressuscitou ao terceiro dia…

Agnóstico
Mas eu nunca vi um cadáver deixar de ser cadáver…

Pastor
Ah moleque, você não tem mesmo fé nenhuma, pois não? Se deixou de haver ressurreições foi porque Deus se esqueceu de passar pelo notário para certificar as habilitações e alvarás dos seus representantes, tá entendendo? A I. G. D. D. é a Igreja Global da Democracia de Deus! Igreja porque somos uma igreja, global porque estamos em tempo de globalização (se bem que em África não haja água potável), democracia porque houve uma revolução lá no paraíso celeste, um regicídio e aboliram a monarquia e aquilo passou a ser uma democracia, e Deus continua sendo Deus.

Agnóstico
Mas se houve um regicídio no céu, como é que é possível que Deus tenha sobrevivido?

Pastor
Pertinente a sua questão. Mas Deus é imortal, assassinaram ele, mas ele se ressuscitou. Aí ele encabeçou o primeiro governo, depois o segundo, o terceiro e por aí adiante… Deus, Deus, Deus, Deus…

Agnóstico
Porque é que só estás a invocar o nome de Deus?

Pastor
Ué! Tou invocando Deus. O primeiro que foi rei, o segundo que foi chefe de um governo de esquerda, o terceiro que foi chefe de um governo centrista e o quarto que foi chefe de um governo de direita… Deus! Deus! Deus! Deus! Segundo o decreto-lei celestial aprovado em conselho de arcanjos numa data qualquer perdida na eternidade, e usando os poderes que me foram delegados peço que esta tijuca loura seja ressuscitada…

Secretária de Deus
Vou enviar o seu requerimento para o tribunal da relação dos santos, que irá submeter o seu parecer ao tribunal constitucional dos apóstolos, que irá enviar o acórdão para o conselho angelical de magistratura, que enviarão a sua sugestão para o bastonário da ordem dos arcanjos (só para não haver frissons mediáticos), e finalmente o caso será apreciado pelo supremo tribunal. O veredicto chegará depois a Deus que o analisará, e irá deliberar se veta ou não a decisão, ou se interpõe recurso…
(to be continued)