domingo, 3 de maio de 2009

O escritor que gostava de construir palavras com o mijo

O problema que se lhe deparava não era tanto aquele célebre dilema dos escritores, angustiados com a folha em branco por escrever. Era mais o não ter onde escrever. Às vezes dava-lhe uma vontade súbita de deixar inscrita uma frase qualquer num sítio também ele qualquer, assim uma espécie de um aforismo ou máxima. Noutras ocasiões apontava números, sendo que cada dígito correspondia a uma letra. Assim, só ele poderia saber o que escrevera, se bem que frequentemente esquecia-se do código que utilizara. Mas não se pense que se tratava de uma pessoa com uma obsessão compulsiva pela escrita. Era uma coisa que lhe dava esporadicamente, assim como um doente com reumático que de quando em vez tem dores imobilizantes. Dizem que essa maleita ataca mais quando se muda o tempo. O mesmo é aplicável a este sujeito, que talvez pela mudança das condições meteorológicas tinha de escrever algo, como se de uma questão de vida ou de morte se tratasse. E tudo servia... Sair a meio do banho para escrever um verso no espelho enevoado, construir palavras com os mais variados objectos ou até tentar dar forma a letras enquanto urinava. Obviamente que nada ficava visível graficamente, mas ele lá se divertia a direccionar o jacto de mijo contra a porcelana do urinol. A escrita era para ele como uma patologia sazonal. E ele sabia-o, estava consciente dos sintomas. Mas escrever uma banalidade por entre outra era uma coisa que desde a primária o acompanhara. Outra era o que o começava a inquietar. Pela primeira vez sentia um desejo absurdo de criar algo para além das palavras. Uma obra assim ao jeito de escritores russos ou um livro-monumento a fazer lembrar os grandes testamentos do Romantismo. E a ideia assustava-o. Sabia que tinha de começar essa empreitada como se de uma demanda sagrada se tratasse, mas não sabia como.

9 comentários:

Teresa Queiroz disse...

fantástico!!
heheheh ... epor vezes se começa assim ...escrevendo palavras com jactos de urina ...
esse previlégio que a natureza vedou ás mulheres :)
passarei mais vezes

Gasolina disse...

Bom... Com mijo não vai lá. Ou pelo menos obra que fique para a posteridade. Se bem que, nota-se já a intenção... Ou, arrisco, assemelha-se a uns quantos que escrevem como mijam.

Curioso. As aflições dele já eu as senti muitas vezes. Mas nunca me tinha lembrado de resolver o problema a liquido.

Terei que esperar para ver como ele irá construír a sua obra.
Que isto continua, não é assim?!

Beijo, bom ter-te de novo.

Rafeiro Perfumado disse...

Se esse gaijo for casado, deve levar pouca da mulher, deve!

Uma vez tive uma ideia fantástica para um poste, e anotei numa folha. Duas semanas depois peguei no papel onde se lia "E foi assim que ele as fez! AHAHAHAH!". Ainda hoje não percebi o que tinha bebido...

impulsos disse...

Eacho que passei por ele hoje numa sala algures por aí onde é suposto as pessoas publicarem as coisas que escreves e aquele título chamou-me a atenção: Nada. E para meu enorme espanto, não é que só tinha mesmo a palavra "nada" como corpo do esctito!!

Aqui:
http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=81354Acho que era o mesmo de que falas...

Beijo

PS. O post que continha um comentário teu e recente, foi passado a rascunho e devidamente guardado por não me satisfazer como queria, assim que o melhorar, voltarei a republicar com os comentários já existentes. Sory

impulsos disse...

Errata:

Onde se lê Eacho, deve ler-se: Eu acho
E onde se lê escreves, deve ler-se: escrevem

mdsol disse...

Oh Tinha-o perdido de vista... Problemas no computador e perdi o endereço...
Bem reaparecido. Voltarei mais vezes!

:))

Jay Dee disse...

Strange, indeed

Elipse disse...

A escrita é, muitas vezes, uma patologia sasonal, sendo que as estações podem ser inúmeras e variadas. Normalmente é o Outono (ou são os Outonos) que ganha(m)!

Também muitas vezes a escrita foge ao cânone... quer na forma, quer no suporte! A graça está sempre na capacidade de se ser original.

Andesman disse...

Eu conheço um gajo, que quando era miúdo escrevia umas piratarias no chão com o mijo. Ahahahah!!!