terça-feira, 8 de setembro de 2009

Esboço de personagem (Gajo Picuinhas novamente)

O bom de estar desempregado é não me custar a levantar da cama. Porque o acto de levantar da cama é como o acto de ler um livro, por obrigação não tem piada nenhuma. Abro o estore. Mas devagar, que é para criar suspense. Nunca se sabe que surpresas o dia decidiu trazer-nos. Céu limpo e as folhas das árvores não se movem. Mau dia para sair de casa. O ar que não flui não dilui as bactérias. Não leva para longe o dióxido de carbono que as pessoas expelem dos pulmões. Já se imaginaram a abrir a caixa torácica de alguém e a meterem o nariz lá dentro? A ideia não é agradável.

Só me sinto à vontade na rua em dias de temporal. O vento centrifuga a porcaria que as pessoas deitam para fora do corpo e a água da chuva lava-a. E não falo apenas de porcaria física, mas também daquela que não se vê. Essa é a pior, porque está camuflada e ataca pela calada, sem ninguém dar conta. Mas eu sinto-a sempre, a mim não me apanha. Claro que se as sarjetas estiverem entupidas e a água se amontoar em poças a coisa ainda é pior do que em dias de céu limpo. Criam-se pântanos de merda física. Isso é de meter nojo a qualquer um. Mas o pior é a merda microscópica e a merda etérea que por lá abunda. Mas agora não quero pensar nisso.

Outra das vantagens de estar desempregado é não ter de pegar o dia pelos cornos se não tiver vontade. Sei que para o meu pai, tios e primos sou aquilo a que eles chamam um parasita. Que vive da Segurança Social. Todos os Natais é a mesma coisa "ah e tal, os descontos que eu faço é que te sustentam" (Como diria um amigo meu: "Era metê-los a todos num caixote e atirá-los ao mar"). Tenho de dizer que toda a minha família é bem sucedida. Trabalham todos por conta própria, a geração mais velha no ramo da construção e a mais nova em profissões liberais. Mas se há coisa em que têm talento comum é em ganhar quantidades razoáveis de dinheiro e ludibriarem as finanças declarando o salário mínimo. Portanto, sempre que estou com eles fico confuso sobre quem é que realmente me sustenta, já que todos são mestres em fugir ao fisco e à Segurança Social. É que não há director-geral dos impostos que lhes sobreviva.

O que vale é que só tenho de os aturar no Natal. O resto do ano posso prosseguir normalmente com a minha vida. Observar o meu quarteirão, como se fosse Deus a contemplar a sua criação, e pensar em nada para me inibir de agir. Às vezes até gostava de ter uma vida mais activa, de utilizar o meu aparelho fonador mais que três vezes ao dia, de tocar em alguém, até amar talvez. Mas é a porcaria... essa praga de micróbios físicos e metafísicos que se instalou na cidade que me impede de o fazer. Tenho-lhes pavor.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Esboço de personagem (Escritor alérgico a pontos finais)

Houve um dia em que o sol não nasceu e em que a manhã não apareceu... as pessoas não acordaram para cumprir as suas rotinas diárias, os que não se deitaram ficaram imobilizados num sono profundo, petrificados nos passeios das ruas, os pássaros não cantaram, os jornais ficaram retidos nas gráficas, com os operários colados às máquinas, presos no tempo que deixou de o ser.... o lixo não apodreceu e os cadáveres já não se decompunham...o vento não soprou e a terra, essa, não girou... permaneceu imutável como se todo o Universo tivesse sido congelado... o curso dos rios parou, as ondas deixaram de embater na areia das praias e nas rochas das falésias... tudo deixou de ser tudo e passou a ser outra coisa qualquer que ninguém poderia saber o que era.... as nuvens ficaram fixas no céu, estáticas como se tivessem sido pregadas num papel de cenário sem princípio nem fim... os corações cessaram os seus batimentos e os cérebros não emanaram mais infinitos impulsos magnéticos (ou serão eléctricos?)

«Ó Zé, sinceramente, achas que isto tem alguma coisa por onde se lhe pegue? Sabes muito bem que estas tretas existencialistas não vendem. Eu quero ajudar-te Zé, a sério que quero, mas já te tinha dito que agora o que está na moda são aquelas tretas dos livros de auto-ajuda ou então romances históricos tipo policiais, sempre com uns misteriozitos pelo meio e, de preferência, que meta aqueles gajos, aqueles monges da Idade Média... Ai, como é que se chamavam?...»

«Templários...»

«Isso, isso... agora estas tretas que escreves não servem para nada... quem é que tem pachorra para ler isso? Ninguém... As pessoas precisam é de livros par ler no metro ou quando se deitam ou até quando estão na casa de banho a cagar, percebes? Ou então de livros que as levem a pensar que estão a descobrir uma coisa nova e subversiva que mais ninguém sabe. Eu quero ajudar-te, mas tens de me dar uma coisa que venda e que as pessoas queiram ler, estás a ver?».

«Estou... mas eu preciso mesmo de dinheiro... não me podes emprestar algum, que eu vou ver se escrevo assim um romance histórico ou coisa parecida?»

«Ouve lá, mas eu tenho cara de Santa Casa da Misericórdia ou quê?»

Ponto final na conversa, que por acaso na frase anterior até acabou com um ponto de interrogação... Mas porque é que existem pontos finais, se as certezas que se podem ter são nenhumas? Eu, como escritor, amante da língua, da reflexão e do pensamento, insurjo-me contra a utilização dos pontos finais, porque certezas não há nenhumas (provavelmente se tivesse escrito esta frase num computador com corrector ortográfico, seria assinalado um erro de concordância, o que até prova que a certeza mais científica de todas pode estar errada, mas será a frase agramatical?)! Todas as frases deviam acabar com um qualquer sinal de pontuação que não o ponto final, porque não existem pontos finais na vida, até a morte é um grande ponto de interrogação ou de exclamação! E pior que o ponto final é o ponto final parágrafo, como se um assunto pudesse morrer e ser chutado para canto, quando todas as questões estão em aberto e tudo é recursivo, mesmo a linguagem... será assim?

Até os dois pontos têm mais ética e são menos cobardes que o ponto final porque: permitem dizer mais qualquer coisa a seguir (é sempre bom ter qualquer coisa mais a dizer) e, deixa ver, hum, não me lembro de mais nada, mas é para isso mesmo que servem as reticências, para deixar a outros a continuidade de uma ideia ou raciocínio, como faziam os artistas na Idade Média...

domingo, 2 de agosto de 2009

Esboço de personagem (arquitecto)

Luzinhas que se movimentam frenéticas, sons que se ouvem sufocados e que se amontoam do outro lado da janela e parecem querer quebrá-la e ensurdecer-me como se fossem uma sinfonia infernal. O meu olhar dispersa-se pelos infinitos pontos cirandantes que se vêem da janela do escritório. Esforço-me para fazer com que os meus sentidos divaguem por todos os campos sensoriais possíveis de maneira a que o meu pensamento se descentre da descrença, mas a ideia da existência mutilada é demasiado forte para se sublimar.

Telefono-te. As tuas palavras querem despreocupar-me, mas o tom da tua voz impõe-se. «Sim, hoje sinto-me melhor. Não te preocupes». A tua morte está perto e a tua voz sabe disso e manifesta-o - fraca e cansada - também ela mutilada. Desligo.

Pode ser que tudo não passe de um sonho, de um daqueles sonhos maus, de uma provação daquelas que vêm na Bíblia, que servem só para testar a fé, como aquela história do Abraão ter de matar o próprio filho ou as provações que Job teve de ultrapassar e, depois de passarmos o teste divino, Deus, ou seja lá o que for, aparece no último momento a remendar as coisas... Pode ser. Mas não sou um homem de fé, nem sequer crente, que se há-de fazer?

A tua voz doente e ciente do teu fim vai-se perdendo na minha memória. As recordações começam a ser abafadas por outros pensamentos: pelo que vejo da janela deste nono andar, pelas luzinhas que se movimentam, frenéticas, pelos sons que se ouvem sufocados e que se amontoam do outro lado da janela e parecem querer quebrá-la e ensurdecer-me como se fossem uma sinfonia infernal, da cidade que teima em não descansar e que nunca perde a sua dinâmica, nem quando todos os quase infinitos objectos que a compõem permanecem estáticos, sem espaço para fluir, como se fossem pensamentos que percorrem um cérebro desgastado pela erosão da vida e sem espaço para abarcar nada mais.

Hoje não te vou visitar... não me sinto com forças para enfrentar o teu ar doente e os teus olhos que a falta de cabelo fez com que parecessem ainda maiores, mas sem brilho e sem alegria. Fixam-se apenas no nada, olham o vazio, contemplam o passado e recusam-se a observar o futuro e, pior que isso, parecem querer fugir do presente. Está decidido, hoje não vou visitar-te...

Prefiro antes ficar a observar o caos lá fora, feito das rotinas de todos os que vagueiam pela cidade. Sossega-me e reconforta-me e quase já nem me lembro que estás confinada a um quarto de hospital, à espera do teu fim que não está muito distante. Sei que cada segundo teu parece uma eternidade, porque subexistir assim é insuportável. Vais-me morrendo aos poucos e eu aqui, encafuado neste atelier, a refugiar-me nas reuniões, a evadir-me no trabalho, a abafar o pensamento de ti, escapulindo-me da realidade... e tu...

«Senhor arquitecto, telefone para si... É o engenheiro Mattoso... Digo-lhe que está em reunião?»

«Não Lurdes, eu atendo... Sr. Engenheiro como está?... Não, ela não está muito bem e não há perspectivas de melhoras... Pode ser que sim... Obrigado pela preocupação... Mas falando de trabalho, já fez o projecto para a estrutura do prédio da Baixa?...»

domingo, 26 de julho de 2009

Esboço de personagem (Gajo Picuinhas)

Supermercado de putas... da janela do autocarro nocturno vazio vejo amontoados de carne usada espalhada pelos passeios. Adereços berrantes, cores estendidas pela pele, roupas que deixam adivinhar órgãos usados vezes infindas. Homens que percorrem o passeio para cima e para baixo, aproximando-se das presas como abutres famintos, como se fossem pelintras em redor do expositor de supermercado onde estão os produtos promocionais, tipo daqueles leve dois pague um ou com vinte por cento de desconto, ou então, aqueles produtos promocionais mais sofisticados, do género, na compra deste delicioso queijo de barrar que tem prazo de validade de hoje, oferecemos-lhe uma embalagem de pão de ontem (como diria um amigo meu: "É a loucura").

Saio do autocarro, caminho pelo passeio onde presas que querem ser caçadas e predadores que, sem o saberem, acabam por ser caçados, se misturam, se aproximam, falam, negoceiam, regateiam, num ambiente onde o odor hormonal e libidinoso domina, apesar de ninguém o sentir. É tão evidente que o olfacto não consegue percepcioná-lo. Nem um cão altamente treinado, daqueles que fazem resgates e que baptizam com o nome de "binómio cinotécnico" conseguiria detectar este cheiro. Para dizer a verdade, eu também não o consigo cheirar, mas sei que ele existe porque inquina-me as memórias e os pensamentos.

Caminho apressado, discreto. Tento evitar que se pousem olhares sobre mim, não quero... não gosto... Talvez prefira observar a vida a vivê-la, optando por ver no lugar de ser visto. Procuro as chaves no bolso. Cá estão elas, a reluzir. Abro a porta do meu prédio... escuridão total. Ouve-se uma melodia perdida, consumida pelas paredes e pilares. Ouvem-se conversas abafadas, que parecem ressoar do interior de mim. Carrego no interruptor, a escuridão não se desvanece. Azar! (Como diria um amigo meu: "São vidas") Começo a galgar as escadas com cuidado para não tropeçar. Seis andares, sem elevador. À medida que ultrapasso os degraus, a tal melodia vai-se tornando mais evidente e as tais conversas menos abafadas. Já consigo distinguir a melodia de uma qualquer música romântica sem qualidade (como diria um amigo meu: "Música de fazer meninos"). Já consigo distinguir na conversa um timbre feminino com sotaque brasileiro, que tenta modelar os sons no tracto vocal para lhes dar uma textura de sedução.

Se lá fora era um supermercado, aqui é um minimercado, do género de uma mercearia familiar onde se vai quando acaba alguma coisa em casa ou quando se quer comprar fiado. "Ponha o broche e a queca na conta, que no fim do mês passo por cá para lhe pagar D.ª Emília". Se todos os chulos fossem como a D.ª Emília, a prostituição entraria em crise. Ora aqui está uma boa frase para treinar as orações condicionais. Uma vez tentei ensinar a porcaria desta estrutura frásica a uma inglesa com cara de cavalo e o resultado não foi lá muito famoso.

Entro em casa. Cheira a mofo e este odor consigo senti-lo. Ligo as luzes e corro para a casa de banho para lavar as mãos. Desinfectar-me. Já repararam na quantidade de vezes que os outros coçam os tomates por dia? E, quer se queira quer não, na rua toca-se sempre em sítios onde outros tocaram após terem coçado os tomates ou outro qualquer elemento genital próprio e/ou de terceiros. Que nojo!

domingo, 5 de julho de 2009

Esboço de personagem (menina de oito anos)

Sempre tive medo do escuro. Desde que me lembro de ser eu que me lembro de ter medo do escuro. E o meu pai também me dizia que eu tinha medo do escuro, mas isso não impediu que também ele desaparecesse pelo meio do escuro. A minha mãe não dá muita importância ao meu medo do escuro. Sabe que tenho medo do escuro, mas diz-me que isso é normal e diz-me para pensar nas bonecas com vestidos cor-de-rosa que estão nas prateleiras daquela loja dos senhores de olhos em bico que têm um bebé também com os olhos em bico e rechonchudo e com os cabelos em pé. Mas eu não gosto das bonecas com vestidos cor-de-rosa que estão nas prateleiras daquela loja dos senhores de olhos em bico. Eu gosto é das Barbies e dos Kens e da casa da Barbie e do carro da Barbie e da mota da Barbie e da Barbie enfermeira e da Shelly que é a sobrinha da Barbie. Mas a minha mãe finge que não sabe que eu gosto é de Barbies. São muito caras, diz ela. E ela também tenta fingir que se esquece que eu tenho medo do escuro, senão não me deixava todas as noites sozinha com o meu irmão pequenito. Mas parece que não é irmão, parece que é só meio-irmão. Pelo menos é isso que diz a Ana que anda comigo na escola. E também foi a Ana que anda comigo na escola que me falou das Barbies e dos Kens e da casa da Barbie e do carro da Barbie e da mota da Barbie e da Barbie enfermeira e da Shelly que é a sobrinha da Barbie. A Ana lá da escola diz que as bonecas com vestidos cor-de-rosa que estão nas prateleiras daquela loja dos senhores de olhos em bico não prestam. E eu acredito na Ana, porque todas querem ser amigas da Ana e eu também quero. Mas eu agora não posso pensar nas Barbies. E tenho de ser forte e esquecer o meu medo do escuro. Tenho de cuidar do meu irmão ou meio-irmão como diz a Ana que anda comigo na escola. Mas eu ainda não sei se é irmão ou se é meio-irmão. E ele não tem medo do escuro. Ainda não tem idade para saber que o escuro pode fazer mal. O pai dele também desapareceu pelo meio do escuro, mas o meu irmão ou meio-irmão, ainda não sei, não tem idade para se preocupar com isso. Nem sabe que a mãe nos deixa quase todas as noites sozinhos para ir trabalhar. A mãe nunca me disse onde trabalhava, mas eu acho que ela tem um trabalho muito importante porque demora-se sempre muito tempo a arranjar. Ela nunca me disse, mas eu acho que é enfermeira, como aquela Barbie da Ana que anda lá na escola. Toma banho, passa meia hora em frente ao espelho a pintar-se e a pôr-se bonita. Até parece uma Barbie. Mas eu às vezes sou má e quando fico zangada com ela por ela nos deixar sozinhos no escuro digo-lhe que ela parece as bonecas com vestidos cor-de-rosa que estão nas prateleiras daquela loja dos senhores de olhos em bico. Digo-lhe que são feias e que ela é tão feia como elas. Mas depois sinto-me mal e no outro dia de manhã quando ela ainda está a dormir vou-lhe dar um beijinho e digo-lhe ao ouvido "gosto muito de ti mãe, ainda és mais bonita que a Barbie enfermeira da Ana lá da escola".

domingo, 28 de junho de 2009

O senhor que se esqueceu que era senhor II

Pés e mais pés, que parecem querer saltar dos sapatos, dos ténis, pretos, vermelhos, brancos e movimentando-se freneticamente. O batuque dos pés contra o solo ressoa-me no crânio, fazendo eco na minha cabeça. Os ossos parecem condutores acústicos que fazem vibrar todo o meu corpo e aceleram-me a pulsação. Estilhaçam-me. Continuo deitado no solo, mas tenho medo de me levantar. Tenho medo que tantos passos infinitos violentos originem um terramoto com crateras a romperem o asfalto da avenida e tudo. Situação de desespero. Eu deixei de ser eu para não tomar decisões e agora, aqui estou, colado a uma soleira, aterrado de medo, com o meu cão a olhar seriamente para mim, a ler-me o pavor no corpo e também ele a apavorar-se. Que fazer? Olho para o céu, mas hoje não há nuvens, o céu está limpo como se uma grande catástrofe se fosse abater sobre o mundo. Não me posso entreter com as nuvens carregadas que me fazem recordar os filmes de terror que já não vejo há muito tempo. Pensado bem, nuvens carregadas dispensam-se... se calhar ainda me aterrariam mais, ainda dariam mais força de gravidade à terra e eu nunca mais me conseguiria erguer desta soleira de mármore rosa, que é uma mulher, de extremos, ora fria ora quente, conforme o tempo. Mas sempre poderiam aparecer aquelas nuvens brancas, imaculadas, a fazer lembrar algodão, como apareciam nos westerns daquele tempo em que as mulheres diziam que eu era parecido com o John Wayne. Mas acho que nunca me pareci com ele, talvez mais com o Camus, já que não chorei no funeral da minha mãe. Mas não importa, hoje já não me pareço com ninguém, nem comigo e, para além disso, já não choro.

E elas continuam, as pessoas que têm nome e são pessoas, a não dar descanso ao chão. Sempre a mexer, a pisá-lo, a maltratá-lo, a desrespeitá-lo, com os seus sapatos e ténis. Algumas até usam botas de biqueira de aço para o magoar. E todas têm medo de lhe tocar, receiam a imundície, receiam os passos de todos os que o pisaram anteriormente, receiam a merda dos cães, as beatas usadas e os que fazem do chão a sua casa. Não lhe tocam. Nem ousam. E continuam, continuam, num ritmo assustador, emitindo ruídos medonhos que não consigo reproduzir e se amplificam nos meus ossos que parecem querer esfrangalhar-se perante tanto decibel. Começo a sentir palpitações. Como se estivesse dentro de um carro daqueles que por vezes passam aqui à noite, com luzinhas azul fluorescentes nos chassis e asas que fazem lembrar as naves descritas nos livros de bolso de ficção científica que comprava ao alfarrabista do Terreiro do Paço por dez paus. E o medo que não me abandona, que brota de dentro de mim. Encolho-me, flicto os joelhos e encosto-os à barriga. Mas nenhuma sensação de protecção uterina me safa. O que fazer? Eu que deixei de ser eu para não tomar decisões e agora, aqui estou, colado a uma soleira, aterrado de medo, com o meu cão a olhar seriamente para mim, a ler-me o pavor no corpo e já ele também apavorado. Começa a ladrar, a rodopiar em círculos, cada vez mais rápido. Tenta em vão abrandar a rotação da terra com o seu movimento em espiral, na esperança que isso abrande o pisar violento dos pés da multidão no chão. E continua. Não desiste. Como se quisesse congelar o mundo. Esforça-se para que as pessoas parem, que sejam imóveis e que lhe dêem, e a mim também, um momento de paz infinita.

Sem resultado. O batuque amplifica-se mais e mais. Não há escapatória. O medo não me deixa erguer. Resta-me contar, como fazia em casa da minha avó quando estava trovoada. Contar o tempo que distava entre a luz e o som, enquanto a minha avó rezava o terço a pedir que o Senhor deixasse de ralhar. Se a soma dos números que me saltitavam no cérebro desse sete era o Apocalipse que estava a entrar no mundo. Mas isso nunca aconteceu. Conto o ribombar dos passos entre cada latido do cão. Sete. Vinte e cinco. Trinta e quatro. Dezasseis. Quarenta e três. Murmuro os números com a minha voz presa, enferrujada de se ter calado há tantos anos. O cão continua a ladrar, mas são muitos passos para a minha cabeça. Um. Seis. Não sei... Quero adormecer e não consigo. Tento recordar-me dos passos contados entre cada latido do cão. Sete. Vinte e cinco. Trinta e quatro. Dezasseis. Quarenta e três. Não falta muito para o mundo acabar.

sábado, 27 de junho de 2009

Começar uma narrativa é tramado...

No princípio Deus criou o céu e a terra… É muito fácil dizer que no princípio isto, no princípio aquilo… O problema é que no princípio nada existe e temos de transformar a coisa nenhuma num céu e numa terra. É por isso que nos é sempre difícil criar um princípio para o que quer que seja. Para construir uma narrativa temos de criar um céu e uma terra e tudo o resto até que o Verbo seja carne. O que custa é iniciar… Vamos acumulando sonhos na nossa memória, pensamentos que nos assaltaram nas nossas vigílias, sensações que experimentámos e experiências que sentimos.

Podia começar com o célebre “No princípio Deus criou o céu e a terra”...

Não!!! Nada disto!!! É preciso estar muito desesperado para começar com o princípio da Bíblia. E se começasse com um gajo a assobiar uma melodia de uma sinfonia qualquer? Não serve!!! E se… e se… mal de nós quando tudo principia por um mísero e se… Imaginem Deus a criar o mundo, o universo ou o que quer seja… Imaginem Deus a pensar: e se criasse primeiro uma mulher e depois um homem? … E se pusesse seios ao homem e barba à mulher?... E se em vez de maçãs o fruto proibido fosse um morango? … Assim sempre era mais afrodisíaco, e com um bocadinho de chantilly o Paraíso seria tema recorrente em filmes pornográficos... E se… e se… Tudo o que principia por um reles e se nunca passará de uma reles experiência do que quer que seja. É como construir uma casa sem alicerces. É como parir sem gravidez...

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Esboço de personagem (o senhor que se esqueceu que era senhor)

Pés e mais pés, acomodados em sapatos, ténis, pretos, vermelhos, brancos e movimentando-se compassadamente. São poucas as pessoas que conheço, e a melhor maneira que tenho de as conhecer é observar-lhes os pés, a maneira de os pousar e de os levantar do chão. Já caras, não conheço nenhumas. O que conheço que mais se assemelha a uma face é mesmo o focinho do meu cão e, antes que perguntem, o meu cão não tem nome. Se nem do meu próprio nome me lembro, e nem sequer me importo com isso, não iria dar o nome a um cão. O meu cão é cão e pronto... e eu sou homem, se bem que às vezes me sinta também um bocado cão, e não preciso de um nome para nada... também são poucas as coisas na vida de que preciso...

Quanto a caras, nem a minha própria conheço. O meu rosto não passa de uma representação mental do que eu era há muito tempo, quando ainda tinha um nome. Apesar de quando em vez os meus olhos verem, por segundos, um reflexo daquilo que parece uma cara, num espelho ou num daqueles pequenos lagos dos jardins... Mas não considero essas imagens um reflexo de um rosto, e mesmo que me desse ao trabalho de me colocar em frente a um espelho e olhar-me atentamente, dificilmente descobriria a minha face, porque já não a tenho. O que tenho é uma barba de anos que oculta não o meu rosto, mas o vazio que lhe ocupou o lugar...

Hoje os pés dos que passam parecem-me mais baços. As nuvens ameaçadoras que se abatem sobre a cidade não permitem que existam condições de luminosidade ideal... sim, nos tempos em que tinha cara também tinha um emprego, até fui iluminador e tudo... à minha observação. Até o focinho do meu cão parece mais cinzento, malditas nuvens... Ou até nem seja assim tão mau haver nuvens, até posso variar e em vez de observar os pés que passam posso entreter-me com as viagens das nuvens a galgar o céu.

Pois bem, hoje que se lixem os pés... Vivam as nuvens, e quanto mais carregadas melhor. Fazem lembrar um filme de terror e eu gosto de filmes de terror apesar de já não ver filmes há muito tempo. Só para terem uma ideia a última vez que vi um filme ainda tinha rosto e ainda não era entendido em pés.

domingo, 3 de maio de 2009

O escritor que gostava de construir palavras com o mijo

O problema que se lhe deparava não era tanto aquele célebre dilema dos escritores, angustiados com a folha em branco por escrever. Era mais o não ter onde escrever. Às vezes dava-lhe uma vontade súbita de deixar inscrita uma frase qualquer num sítio também ele qualquer, assim uma espécie de um aforismo ou máxima. Noutras ocasiões apontava números, sendo que cada dígito correspondia a uma letra. Assim, só ele poderia saber o que escrevera, se bem que frequentemente esquecia-se do código que utilizara. Mas não se pense que se tratava de uma pessoa com uma obsessão compulsiva pela escrita. Era uma coisa que lhe dava esporadicamente, assim como um doente com reumático que de quando em vez tem dores imobilizantes. Dizem que essa maleita ataca mais quando se muda o tempo. O mesmo é aplicável a este sujeito, que talvez pela mudança das condições meteorológicas tinha de escrever algo, como se de uma questão de vida ou de morte se tratasse. E tudo servia... Sair a meio do banho para escrever um verso no espelho enevoado, construir palavras com os mais variados objectos ou até tentar dar forma a letras enquanto urinava. Obviamente que nada ficava visível graficamente, mas ele lá se divertia a direccionar o jacto de mijo contra a porcelana do urinol. A escrita era para ele como uma patologia sazonal. E ele sabia-o, estava consciente dos sintomas. Mas escrever uma banalidade por entre outra era uma coisa que desde a primária o acompanhara. Outra era o que o começava a inquietar. Pela primeira vez sentia um desejo absurdo de criar algo para além das palavras. Uma obra assim ao jeito de escritores russos ou um livro-monumento a fazer lembrar os grandes testamentos do Romantismo. E a ideia assustava-o. Sabia que tinha de começar essa empreitada como se de uma demanda sagrada se tratasse, mas não sabia como.

sábado, 21 de março de 2009

Esboço de personagem (Dona Rosa)

Todos os dias penso que o dia de amanhã será o meu último dia neste mundo. Mas, dia após dia, continuo neste mundo e um número infindável de seres acabam por abandonar o mundo em dias que podiam ter sido os últimos da minha existência. Amanhece… abro os cortinados e os estores e vislumbro o cemitério... aparece-me sempre envolto numa neblina… como aquelas ilhas encantadas que só se alcançam muito tempo depois de serem avistadas…. será a minha última morada… e nem é assim tão longe, é só atravessar a rua… pernoitarei lá eternamente… nos amanhãs que podiam ser ontens.

Todos os dias passam por mim como se fossem os últimos. Vivo no receio de cada instante ser o derradeiro, mas acabam por ser os derradeiros instantes de seres que nunca imaginaram que aquele instante seria o derradeiro… Ainda na semana passada o miúdo que se despistou na minha avenida… Nem deve ter imaginado que aquela guinada seria o último instante da sua curta existência…

Estou velha… e quero fazer de cada momento um momento de velhice…



Pressinto-me na antecâmara da morte, e tento viver como vivem as pessoas que se sentem na antecâmara da morte… esperando… por um amanhã que possivelmente não existirá. Mas, até agora, e passados noventa e dois anos, todos os amanhãs me apareceram… No entanto, amanhãs houve que não apareceram ao meu marido, nem aos meus filhos, nem ao meu neto, nem ao bebé da vizinha do lado que morreu numa incubadora…

Hoje foi mais um amanhã que me apareceu… comer quatro vezes… tomar os medicamentos... para o Parkinson, para a artrite reumatóide, mais as vitaminas e o cálcio... ir cinco vezes à casa de banho… ver programas na televisão… e, acima de tudo, esperar… imóvel… visto que o meu corpo quer petrificar-se e a minha mente não a quero a vaguear…. estática… esperar em silêncio …

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Allgarve by Saramago

"É natural que a alguém lhe pareça estranho que uma estalagem que ainda se encontra em território italiano tenha um nome alemão, mas a coisa explica-se se nos lembrarmos de que a maior parte dos hóspedes que aqui vêm são precisamente austríacos e alemães que gostam de sentir-se em sua casa. Razões afins levarão um dia a que, no algarve, como alguém terá o cuidado de escrever, toda a praia que se preze, não é praia mas beach, qualquer pescador fisherman, tanto faz prezar-se como não, e se de aldeamentos turísticos, em vez de aldeias, se trata, fiquemos sabendo que é mais aceite dizer-se holiday's village, ou village de vacances, ou ferienorte. Chega-se ao cúmulo de não haver nome para loja de modas, porque ela é, numa espécie de português por adopção, boutique, e, necessariamente, fashion shop em inglês, menos necessariamente modes em francês, e francamente modegeschäft em alemão. Uma sapataria apresenta-se como shoes, e não se fala mais nisso. E se o viajante pudesse catar, como quem cata piolhos, nomes de bares e buates, quando chegasse a sines ainda iria nas primeiras letras do alfabeto. Tão desprezado este na lusitana arrumação que do algarve se pode dizer, nestas épocas em que descem os civilizados à barbárie, ser ele a terra do português tal qual se cala."

in A Viagem do Elefante

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

...

Olhar para um papel. Querer deixar escrito numa folha algo que diga o que somos e permaneça ao tempo. Que não deixe que o cancro que nos corrói e nos irá matar amanhã nos apague do mundo. Em branco. Nada. Como todos os outros que se foram. Nada. Tudo o que vivemos, o que demos e o que recebemos será esquecido pelos que ficam. Quando formos... depois de irmos... o tempo esvaziará repentinamente aquilo que passámos toda a existência a encher a conta gotas. Aquilo que somos... A folha em branco. Nada...

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Uma questão de maiúsculas

"deus é grande, mas o Homem é maior." (Antroporípides, personagem que acredita ter inventado o conceito de deus ex machina)

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Espacialidades

A treta do espaço. Frase ridícula o “preciso de espaço”. Mas qual espaço? O espaço não importa, consegue fazer-de desaparecer, manipular, moldar, estender e encurtar pelas linhas de uma narrativa. O espaço somos nós que o fazemos, ou por outra, usando algo mais metonímico, o espaço somos nós. “Preciso de espaço”. Porque insistem em usar esta expressão quando as relações não correm da melhor forma, ou quando os sentires se vão aos poucos deixando de se sentir. “Preciso de espaço”. É que se fosse "do" espaço ainda percebia. Ainda era uma coisa concreta, palpável, algo que se consegue definir e apontar. Agora “de espaço”. O “de espaço” encerra sei lá o quê. “Preciso de espaço”. Mas porque ninguém diz que precisa do não-espaço. O não-espaço é muito mais original para se pedir, ou para se precisar. E as pessoas não sabem, mas são mais frequentes as vezes em que se precisa do “não-espaço” que “de espaço”. Quando se tenta apagar o espaço introduzindo um pénis numa vagina. Quando se tenta escapar do mundo apertados num abraço que apaga momentaneamente todo o espaço que está à volta. Por que raio é que nessas alturas ninguém diz: “Dá-me o não-espaço”. Porque pedem espaço quando o que realmente querem é apagar o espaço que o passado ocupa? Peçam “não-espaço”.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Pezinhos de lã

Chega de noite. Naquela fase da noite em que não se distingue bem se a noite ainda é velha ou se a madrugada acabou de nascer. A oscilação do tempo também ela a sente. Ora se sente nova, com a vida, e uma infinidade de amores e desamores pela frente, ora velha, com receio que a fonte dos sentires e dos afectos seque. Longa vai a noite ou curta está a madrugada e ela chega, com pezinhos de lã, para que ninguém lá na casa note a sua presença. Tem vergonha, mas o desejo é mais forte. Dirige-se para o quarto dele. Ama-o, beija-o, com a sofreguidão de quem desespera, com medo que a idade a faça deixar de ser desejada. Passa a noite toda naquilo. Sai de madrugada. Naquela fase da madrugada em que não se distingue bem se a madrugada ainda é velha ou se a manhã acabou de nascer. Pensa-se velha e sabe que a fonte dos sentires e dos afectos secou. Sente-se nova, com a esperança de ter ainda a vida e uma infinidade de amores e desamores pela frente. Longa vai a madrugada ou curta está a manhã e ela sai, com pezinhos de lã, para que ninguém lá na casa note a sua ausência.

quinta-feira, 28 de agosto de 2008

De senectute

Dois velhos na rua. Ela caminha normalmente e ele, agarrado a uma bengala, caminha com dificuldade. Ela acelera. Deixa-o para trás. Olha para ele, qual adolescente a fazer aquele sorriso maroto de quem vive o primeiro amor: “Não me apanhas!”

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

O noivo cadáver


Foto: Bo Bor, Reuters

terça-feira, 26 de agosto de 2008

Diz que...

O pior passado que nos pode acompanhar é o passado do não dito. Os momentos em que poderíamos ter-nos revelado e não o fizemos aparecem-nos no presente e em todos os futuros presentes. O remorso de não termos dito o que realmente deveríamos ter dito destrói-nos momento a momento. A destruição de nós não é dolorosa, é imperceptível. O que nos preenche vai sendo sugado para não sei onde… esvaziamo-nos gradualmente sem darmos conta. Fazemo-nos desaparecer agarrados a um momento que já não é momento. Aprisionamo-nos num paradoxo temporal sem retorno. Perdemo-nos de nós… e nada há a fazer.

domingo, 24 de agosto de 2008

Amor em tempos de tensões geo-estratégicas

Era tão bom que um beijo relegasse para segundo plano as máquinas pesadas de artilharia...

Foto: Konstantin Chernichkin, Reuters (Parada militar na Ucrânia)