terça-feira, 4 de agosto de 2009

Esboço de personagem (Escritor alérgico a pontos finais)

Houve um dia em que o sol não nasceu e em que a manhã não apareceu... as pessoas não acordaram para cumprir as suas rotinas diárias, os que não se deitaram ficaram imobilizados num sono profundo, petrificados nos passeios das ruas, os pássaros não cantaram, os jornais ficaram retidos nas gráficas, com os operários colados às máquinas, presos no tempo que deixou de o ser.... o lixo não apodreceu e os cadáveres já não se decompunham...o vento não soprou e a terra, essa, não girou... permaneceu imutável como se todo o Universo tivesse sido congelado... o curso dos rios parou, as ondas deixaram de embater na areia das praias e nas rochas das falésias... tudo deixou de ser tudo e passou a ser outra coisa qualquer que ninguém poderia saber o que era.... as nuvens ficaram fixas no céu, estáticas como se tivessem sido pregadas num papel de cenário sem princípio nem fim... os corações cessaram os seus batimentos e os cérebros não emanaram mais infinitos impulsos magnéticos (ou serão eléctricos?)

«Ó Zé, sinceramente, achas que isto tem alguma coisa por onde se lhe pegue? Sabes muito bem que estas tretas existencialistas não vendem. Eu quero ajudar-te Zé, a sério que quero, mas já te tinha dito que agora o que está na moda são aquelas tretas dos livros de auto-ajuda ou então romances históricos tipo policiais, sempre com uns misteriozitos pelo meio e, de preferência, que meta aqueles gajos, aqueles monges da Idade Média... Ai, como é que se chamavam?...»

«Templários...»

«Isso, isso... agora estas tretas que escreves não servem para nada... quem é que tem pachorra para ler isso? Ninguém... As pessoas precisam é de livros par ler no metro ou quando se deitam ou até quando estão na casa de banho a cagar, percebes? Ou então de livros que as levem a pensar que estão a descobrir uma coisa nova e subversiva que mais ninguém sabe. Eu quero ajudar-te, mas tens de me dar uma coisa que venda e que as pessoas queiram ler, estás a ver?».

«Estou... mas eu preciso mesmo de dinheiro... não me podes emprestar algum, que eu vou ver se escrevo assim um romance histórico ou coisa parecida?»

«Ouve lá, mas eu tenho cara de Santa Casa da Misericórdia ou quê?»

Ponto final na conversa, que por acaso na frase anterior até acabou com um ponto de interrogação... Mas porque é que existem pontos finais, se as certezas que se podem ter são nenhumas? Eu, como escritor, amante da língua, da reflexão e do pensamento, insurjo-me contra a utilização dos pontos finais, porque certezas não há nenhumas (provavelmente se tivesse escrito esta frase num computador com corrector ortográfico, seria assinalado um erro de concordância, o que até prova que a certeza mais científica de todas pode estar errada, mas será a frase agramatical?)! Todas as frases deviam acabar com um qualquer sinal de pontuação que não o ponto final, porque não existem pontos finais na vida, até a morte é um grande ponto de interrogação ou de exclamação! E pior que o ponto final é o ponto final parágrafo, como se um assunto pudesse morrer e ser chutado para canto, quando todas as questões estão em aberto e tudo é recursivo, mesmo a linguagem... será assim?

Até os dois pontos têm mais ética e são menos cobardes que o ponto final porque: permitem dizer mais qualquer coisa a seguir (é sempre bom ter qualquer coisa mais a dizer) e, deixa ver, hum, não me lembro de mais nada, mas é para isso mesmo que servem as reticências, para deixar a outros a continuidade de uma ideia ou raciocínio, como faziam os artistas na Idade Média...

domingo, 2 de agosto de 2009

Esboço de personagem (arquitecto)

Luzinhas que se movimentam frenéticas, sons que se ouvem sufocados e que se amontoam do outro lado da janela e parecem querer quebrá-la e ensurdecer-me como se fossem uma sinfonia infernal. O meu olhar dispersa-se pelos infinitos pontos cirandantes que se vêem da janela do escritório. Esforço-me para fazer com que os meus sentidos divaguem por todos os campos sensoriais possíveis de maneira a que o meu pensamento se descentre da descrença, mas a ideia da existência mutilada é demasiado forte para se sublimar.

Telefono-te. As tuas palavras querem despreocupar-me, mas o tom da tua voz impõe-se. «Sim, hoje sinto-me melhor. Não te preocupes». A tua morte está perto e a tua voz sabe disso e manifesta-o - fraca e cansada - também ela mutilada. Desligo.

Pode ser que tudo não passe de um sonho, de um daqueles sonhos maus, de uma provação daquelas que vêm na Bíblia, que servem só para testar a fé, como aquela história do Abraão ter de matar o próprio filho ou as provações que Job teve de ultrapassar e, depois de passarmos o teste divino, Deus, ou seja lá o que for, aparece no último momento a remendar as coisas... Pode ser. Mas não sou um homem de fé, nem sequer crente, que se há-de fazer?

A tua voz doente e ciente do teu fim vai-se perdendo na minha memória. As recordações começam a ser abafadas por outros pensamentos: pelo que vejo da janela deste nono andar, pelas luzinhas que se movimentam, frenéticas, pelos sons que se ouvem sufocados e que se amontoam do outro lado da janela e parecem querer quebrá-la e ensurdecer-me como se fossem uma sinfonia infernal, da cidade que teima em não descansar e que nunca perde a sua dinâmica, nem quando todos os quase infinitos objectos que a compõem permanecem estáticos, sem espaço para fluir, como se fossem pensamentos que percorrem um cérebro desgastado pela erosão da vida e sem espaço para abarcar nada mais.

Hoje não te vou visitar... não me sinto com forças para enfrentar o teu ar doente e os teus olhos que a falta de cabelo fez com que parecessem ainda maiores, mas sem brilho e sem alegria. Fixam-se apenas no nada, olham o vazio, contemplam o passado e recusam-se a observar o futuro e, pior que isso, parecem querer fugir do presente. Está decidido, hoje não vou visitar-te...

Prefiro antes ficar a observar o caos lá fora, feito das rotinas de todos os que vagueiam pela cidade. Sossega-me e reconforta-me e quase já nem me lembro que estás confinada a um quarto de hospital, à espera do teu fim que não está muito distante. Sei que cada segundo teu parece uma eternidade, porque subexistir assim é insuportável. Vais-me morrendo aos poucos e eu aqui, encafuado neste atelier, a refugiar-me nas reuniões, a evadir-me no trabalho, a abafar o pensamento de ti, escapulindo-me da realidade... e tu...

«Senhor arquitecto, telefone para si... É o engenheiro Mattoso... Digo-lhe que está em reunião?»

«Não Lurdes, eu atendo... Sr. Engenheiro como está?... Não, ela não está muito bem e não há perspectivas de melhoras... Pode ser que sim... Obrigado pela preocupação... Mas falando de trabalho, já fez o projecto para a estrutura do prédio da Baixa?...»