terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Allgarve by Saramago

"É natural que a alguém lhe pareça estranho que uma estalagem que ainda se encontra em território italiano tenha um nome alemão, mas a coisa explica-se se nos lembrarmos de que a maior parte dos hóspedes que aqui vêm são precisamente austríacos e alemães que gostam de sentir-se em sua casa. Razões afins levarão um dia a que, no algarve, como alguém terá o cuidado de escrever, toda a praia que se preze, não é praia mas beach, qualquer pescador fisherman, tanto faz prezar-se como não, e se de aldeamentos turísticos, em vez de aldeias, se trata, fiquemos sabendo que é mais aceite dizer-se holiday's village, ou village de vacances, ou ferienorte. Chega-se ao cúmulo de não haver nome para loja de modas, porque ela é, numa espécie de português por adopção, boutique, e, necessariamente, fashion shop em inglês, menos necessariamente modes em francês, e francamente modegeschäft em alemão. Uma sapataria apresenta-se como shoes, e não se fala mais nisso. E se o viajante pudesse catar, como quem cata piolhos, nomes de bares e buates, quando chegasse a sines ainda iria nas primeiras letras do alfabeto. Tão desprezado este na lusitana arrumação que do algarve se pode dizer, nestas épocas em que descem os civilizados à barbárie, ser ele a terra do português tal qual se cala."

in A Viagem do Elefante

9 comentários:

Rafeiro Perfumado disse...

Não gosto desse palhaço, mas nisto até tem razão. Só que depois estraga tudo ao dizer que deveríamos ser um país chamado Ibéria com capital em Madrid...

Abraço!

mdsol disse...

:))

Oxigénio disse...

:) bem haja o seu regresso...já me tinha perguntado o seria feito de si... Bem-vindo!

alexia disse...

Olha, afinal o homem até pontua:)). Faço um brilharete com este genero de piadas no meio que frequento, até parece que já li alguma coisa dele:).
Enfim, o grande ausente foi o Camarinha mas não se pode ter tudo e hoje aprendi aqui que o Saramago diz q deveriamos ser espanhois, mais informação para novas piadas sem ter que o ler:))

Boa semana!

Graça Pires disse...

Eu achei o livro excepcional. Cheio de imaginação e um hino à língua portuguesa.
Um abraço.

Pedro disse...

Ena, gostaste do presente da malta :)

Abraço

legivel disse...

... bem apanhado este "o português tal qual se cala". Que o outro - o que se fala, há muito que tem os dias contados. Mas isso é coisa de somenos importância, não é verdade?...

Henrik disse...

Lol, bom é preciso entender o em que consiste essa ideia da Ibéria caro rafeiro perfumado...Seriam estados-nações independentes à maneira da UE, Galiza, Pais-Basco, Portugal e aí sim com mais precisão Espanha. É uma ideia mui antiga e é necessário que se recorra à história para entender essa afirmação. Não estou com isto a dizer que concordo, mas provavelmente se isso tivesse acontecido a peninsula ibérica (lá vamos nós outra vez) estaria muito mais estável, económica e socialmentre.
P.S. Não sou defensor de Saramago mas ele nunca disse que queria que fôssemos espanhóis mas antes que fôssemos ibéricos no pleno sentido da palavra.

Soul, Heart & Mind disse...

olha, parece-me que é mais um livro que me fará aproximar-me da escrita de saramago depois das intermitências...